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Terça-feira, 7 de Março de 2006

Lei da Prevenção do Terrorismo

Eu glorifico a Revolução!


Prendam-me lá então!


 


 


 



Correr o risco de ser atirado para a cadeia é o mínimo dos problemas que podemos arranjar por causa da “Lei da Prevenção do Terrorismo”, que já esta a causar estragos em cidadãos deste “berço da democracia”[sic].


 


Desde gritar “estupidez” na Conferência do Partido Trabalhista até assistir a festivais de cinema ou usar uma t-shirt a dizer mal de Blair, estamos todos sujeitos a prisão ou detenção, ao abrigo da Lei da Prevenção do Terrorismo. E torna-se claro que foi dada ordem à polícia para intimidar e incomodar qualquer um que se expresse ou tenha comportamentos que possam diminuir a reputação dos nossos “gloriosos” líderes.


 


“Ela [uma mulher polícia] perguntou-me se eu tinha a intenção de fazer mais filmes documentários, especificamente do género político, como o “The Road to Guantanamo”. Ela perguntou “Você tornou-se um actor para fazer filmes como este, para publicitar as lutas dos Muçulmanos?”


 


Uma porta-voz da polícia de Bedford disse


“Os agentes da polícia quiseram fazer-lhes algumas perguntas ao abrigo da Lei Anti-Terrorismo”. “Foram todos libertados nessa mesma hora. Essa lei permite-nos deter e examinar pessoas se acontecer alguma coisa que possa ser suspeita.”


 


Suspeita? Então, assistir ao Festival de Berlim é rotulado de suspeito!


 


Será que as pessoas se apercebem naquilo em que se deixaram cair? Duvido. Será que as pessoas se aperceberam que a polícia pode deter qualquer um, revistá-lo, fazer um monte de perguntas e se ele não quiser responder, podem prendê-lo “em nome de Sua Majestade”?


 


A polícia não precisa de uma prova palpável mas usar uma t-shirt que, por exemplo, chame um “Cabrão Fascista” ao Tony Blair com certeza irá aumentar as probabilidades de serem detidos. Ou então, “estar no lugar errado, à hora errada” ou ter da “cor errada”, vestir roupa “errada” ou assistir a uma reunião ou a um filme.


 


Estas leis estão pensadas com um único propósito, incomodar e intimidar os oponentes do estado imperial e, tudo isso feito em nome da “guerra ao terrorismo” ou como agora lhe chamam “a Longa Guerra”.


 


“As regras mudaram” sim, mas eu explico-vos (para usar uma das expressões favoritas do Blair) que não temos de culpar ninguém a não ser a nós próprios por termos permitido que este estado fascista corporativo mudasse as regras permitindo suprimir toda a qualquer dissidência com a desculpa da fazer a “Longa Guerra”.


 


Mas duvido que o estado corporativo apanhe muitos terroristas só que é garantido que tais leis draconianas irão demover muita gente de ir a manifestações ou mesmo a escreverem ao seu deputado. De facto, qualquer tipo de dissidência irá ser suprimida com estas leis, e é esse o objectivo, no fundo. Os verdadeiros terroristas provavelmente não vão andar a querer chamar a atenção para eles divulgando publicamente que “glorificam o terrorismo” nem brincando com a ideia.


 


Dias mesmo sombrios são algo que temos vindo a alertar há já algum tempo. Passo a passo, inexoravelmente, o estado corporativo tem feito leis que vão fechando todas as possíveis avenidas da liberdade de expressão, pelas quais lutámos durante tantas gerações.


 


Na realidade, “glorificar o terrorismo” é um lençol que cobre não apenas o presente e o futuro mas também o passado. Durante alguns anos eu trabalhei para uma organização que era rotulada de “terrorista” pelo estado Britânico, o Congresso Nacional Africano (ANC). Por isso se eu “glorificar” o ANC, estou a desrespeitar a lei? Alguém quer tentar descobrir? Não você, pessoa “comum”, com certeza. Ou mesmo os milhares de pessoas que foram a manifestações ou se opuseram às políticas do estado corporativo e securitário de Blair.


 


Entretanto o Dr. John Reid, nosso ministro da guerra, avisa-nos sobre a Al Qaeda


 


“Vê os media ocidentais livres como um campo de batalha virtual em si mesmo – onde o desvio da opinião pública do apoio às nossas campanhas, pode ser o caminho para uma ágil vitoria, uma rápida maneira de minar a nossa moral publica.”


 


Media ocidentais livres? O que há de livre nuns media que acertam o passo pela visão estatal da “guerra ao terrorismo”; que se recusam a publicar as últimas obscenidades cometidas contra o povo Iraquiano? Que ainda falam sobre o espancamento de pessoas pelo exército Britânico dizendo “aparentemente”, quando estamos todos a ver o vídeo?


 


Visto no contexto da batalha dos corações e das mentes, este pensamento petulante e desesperado de Reid, revela a fraqueza de um estado titubeante com as grandes derrotas que teve na sua tentativa de “pacificar” o Iraque.


 


Reid mostra vários pressupostos nas suas palavras tais como “o desvio da opinião pública do apoio às nossas campanhas”, quando a opinião pública foi claramente contra as suas campanhas. Reparem também no comentário sobre uma “ágil vitória”, como se a resistência à ocupação no Iraque e no Afeganistão estivesse a ser feita pela Al Qaeda.


 


Não deve passar despercebido ao leitor que é só um saltinho desde defender o direito à resistência Iraquiana de expulsar os invasores, até “glorificar o terrorismo”. Faltará muito tempo para que os que se opõem à ocupação ilegal do Iraque sejam perseguidos com base na Lei da Prevenção do Terrorismo?


 


Será que o apoio à luta de resistência Iraquiana passará a ser rotulado como “glorificar o terrorismo”?


 


O que é pior é a quase total falta de resposta dos chamados “media livres”, exceptuando o singular artigo publicado pelo Escocês Sunday Herald (www.sundayherald.com/54216). Com o titulo “O Parlamento  falhou, desafiemos nós o estado policial de Blair” e escrito por  Ian Macwhirter, diz entre outras coisas:


“A auto-censura vai ter um arrepiante efeito na liberdade de imprensa. Sempre que uma pessoa falar de alguma luta de libertação, sobre eles vai pairar a ameaça de serem processados por glorificarem o terrorismo. Isto é crime de opinião.”


 


E de facto, John Reid (Dr.), aparece em gravações a dizer que não é o que as pessoas digam mas o que elas pensem! Sim, encaixa perfeitamente no crime de pensamento.


 


O artigo de Macwhirter termina da seguinte forma, vendo já realmente, pelas intenções e propósitos, que isto é um estado fascista de facto!


“Talvez alguém devesse compilar uma lista de “atitudes brutais”, que glorificam o terrorismo por todo o mundo, e lê-las em voz alta no Cenotaph de Whitehall[1]. Excepto, claro, a última pessoa que fez isso, Maya Ann Evans, que leu os nomes de mortos na Guerra do Iraque, e foi presa por se manifestar a pouca distância do Parlamento.”


 


Bem, não podem dizer que não foram avisados; pela milésima, vez tenho de repetir as palavras de um anit-fascista Alemão, o Reverendo Martin Niemoller:


 


“Primeiro vieram atrás dos Comunistas, mas eu não era Comunista, por isso não disse nada.


Depois vieram atrás dos Socialistas e Sindicalistas, mas eu não era nem um nem outro, por isso não disse nada.


Depois vieram atrás dos Judeus, mas eu não era Judeu, por isso não disse nada.


E quando vieram atrás de mim, já não havia ninguém para me defender.”


 


 


 


[1] – Monumento, em Londres, construído em honra dos mortos das duas Grandes Guerras.


 


 


Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 21 de Fevereiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0206/ini-0396.html


 

publicado por Alexandre Leite às 22:00

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