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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006

Recondução do Império - Catástrofe Climatérica e Capitalismo

Há uns tempos atrás fiz referência à ideia de que os dois proeminentes poderosos do império, os EUA e o Reino Unido, chegaram à conclusão que a catástrofe climatérica era inevitável e que tinham de ser dados passos para que o capitalismo sobrevivesse à catástrofe essencialmente intacto.


 


Para alguns, talvez até para muitos, isto pode soar a uma noção um pouco rebuscada, mas eu entendo que os actos que os EUA e o seu fiel aliado, o Reino Unido, têm praticado, apoiam esta ideia.


 


Em primeiro lugar, já não há dúvidas de que, façamos o que fizermos para reduzir o efeito de estufa, já desestabilizámos o delicado equilíbrio que existiu na biosfera durante milhões de anos. Por isso, a curto prazo não há possibilidades de restabelecer esse equilíbrio. Claro que num intervalo de talvez centenas, milhares ou até dezenas de milhares de anos, será alcançado um novo equilíbrio. Uma escala temporal que não é mais do que um piscar de olhos, se medirmos em tempo geológico.


 


As espécies vão e vêm mas a natureza trabalha como um só sistema. Mesmo em movimentos massivos, erupções vulcânicas por exemplo, tendo um imenso impacto no planeta, levando à destruição de ecossistemas inteiros, no final, a natureza consegue absorver tais catástrofes e mesmo atingir um novo equilíbrio.


 


Este é o conceito subjacente à Gaia, que a Terra e o espaço vizinho são um sistema interactivo, com processos biológicos, químicos e geofísicos interagindo numa rede infinitamente complexa de relações e das quais nós temos uma compreensão dos princípios envolvidos mas com tal complexidade só podemos tentar adivinhar o futuro em termos muito gerais.


 


Por exemplo, sabemos que um aumento de CO2 para além de um certo nível induz uma cascata de efeitos cujo produto final não conseguimos determinar absolutamente. Mas, por exemplo, uma generalizada subida da temperatura da Terra que leve ao degelo das calotes polares, leva a uma subida do nível do mar (as actuais previsões são da ordem dos sete metros talvez, nos próximos cem anos). Qual será o impacto global na Terra, só podemos tentar adivinhar.


 


Para a Terra, isto é apenas uma alteração na forma e tamanho das zonas terrestres. As espécies que dependem das calotes polares irão desaparecer ou então hão-de adaptar-se às novas condições, mas a vida continua. Zonas de alimentação, áreas de nidação, rotas migratórias vão desaparecer ou alterar-se, espécies inteiras podem extinguir-se, mas com o tempo, a Natureza vai adaptar-se e novas espécies vão ocupar os seus nichos e eventualmente novos ecossistemas vão ser criados a partir das interacções entre a vida e o novo ambiente.


 


O problema para a humanidade é que nós medimos a passagem do tempo em cem anos talvez, digamos três gerações, e a partir daí torna-se uma abstracção para nós. Por isso, o facto da Gaia se importar pouco com a nossa espécie a não ser olhando para ela como um dos passos do processo evolutivo, não é lá grande consolação.


 


É nesta realidade que temos de ver os actos das nações poderosas do império, pois quaisquer que sejam as suas declarações públicas, é inconcebível acreditar que eles não saibam as consequências do aquecimento global e obviamente que eles querem cá estar no poder quando a poeira assentar (se isso vier a acontecer na nossa escala de três gerações, será essa a grande jogada). A questão é, que passos serão necessários dar no curto prazo para assegurar a continuação do capitalismo, assumindo que há um mundo para ser herdado?


 


Há exemplos históricos que nos podem dar alguma luz sobre o assunto. Por exemplo, as acções dos países líderes do capitalismo, depois das duas grandes guerras do séc.XX, que apesar de tudo provocaram “pouca” destruição comparando com o que estamos a experimentar agora, com o clima a ir pelo cano abaixo. Podemos verificar as principais características:


 



  • Depois da II Guerra Mundial, os EUA emergiram não apenas como um vencedor militar mas também como líder da economia. Entrando e financiando a guerra, o capitalismo americano tornou-se ainda mais rico, o que estimulou uma outra revolução na produção tal como a II Grande Guerra tinha feito. Vastos excedentes de capitais foram acumulados, o que permitiu financiar a reconstrução da Europa tornando-o ainda mais rico.

  • Os “bons tempos” do capitalismo pós-guerra terminaram no final dos anos 70 e com isso veio a necessidade de sacrificar os pobres do planeta e vimos a alimentação e o comércio a serem usados como armas, mesmo que isso implicasse mortes de milhões de pessoas e destruição de culturas inteiras. A guerra do Vietname mostrou os EUA a usarem armas de destruição ambiental massiça a uma escala sem precedentes. Destruição tão grande que, ainda hoje, trinta anos depois, o Vietname não recuperou.

 


O uso de armas químicas em grande escala na sua “guerra contra o narcotráfico” levou a enormes destruições do ambiente e também de pessoas que viviam e trabalhavam na terra.


 


A exportação de processos de produção letais para locais sem regulação, como foi o caso da indústria electrónica, levou o lixo para sítios em países como o México, poluindo a água, a terra e o ar tendo também desastrosos impactos na saúde e bem estar de toda a comunidade.


 



  • E finalmente, claro, o consumo ilimitado de recursos naturais de forma a manter a ordem económica capitalista em marcha.

 


O ponto que quero frisar, ponto esse que é reforçado pela forma como os EUA e os seus aliados usaram a destruição ambiental no Iraque e na ex-Jugoslávia, e ilustrado pela deliberada destruição do abastecimento de água e electricidade, da poluição radioactiva através do uso armas com urânio empobrecido, é que não querem saber das consequências tanto a curto como a longo prazo.


 


E apesar dos resultados de tais políticas sejam vistas como “locais”, na globalidade eles mostram um sistema que não pensa nada na destruição a larga escala para conseguir o lucro, independentemente das consequências.


 


Há um número de indicadores que apontam às elites do capitalismo calculando que podem sobreviver essencialmente intactas a um mundo pós-apocalíptico.


 


Primeiro que tudo, dada a revolução na produção, que permite uma produção industrial numa crescente escala, sem a necessidade de um vasto exército de trabalhadores, significa que, mesmo que morram milhões devido a catástrofes ambientais, tais perdas não terão um impacto adverso na capacidade dos estados líderes do capitalismo.


 


De facto, dado o reaparecimento do modo de ver a vida Malthusiano, a redução a larga escala do trabalho, “mataria dois coelhos com uma cajadada”, resolvendo, de uma assentada, a pressão sobre o capitalismo para que partilhe os seus “mal-amanhados” cereais com o planeta.


 


Entretanto, mesmo que as catástrofes climáticas atinjam grandes centros metropolitanos, a experiência que temos da forma como as classes dirigentes dos EUA lidaram com o furacão Katrina é um augúrio de como lidarão com problemas ainda maiores. Foram, no fundo, os pobres, os “excedentes” que sofreram. Os que estavam bem, tiveram uma interrupção na sua boa vida, mas nada que não os deixasse sobreviver relativamente intactos.


 


Não nos devemos esquecer que as elites dominantes têm os recursos do estado e também têm capital na forma de poupanças que as protegem mesmo das maiores crises económicas. Foi esta a experiência das duas Grandes Guerras e também do “crash” da bolsa de 1929, o maior desastre a atingir o capitalismo.


 


Para além disso, temos a experiência de milhões de pessoas, a princípio da classe média, que foram reabsorvidas nos pobres, depois da adopção do “neo-liberalismo” nos finais dos anos 70. Sacrificar, deste modo, comunidades inteiras, não é novo e se as pessoas sobrevivem ou não a isso, não é uma grande preocupação.


 


A seguir, temos de ver as actuais políticas expansionistas dos EUA e do Reino Unido no contexto da iminente catástrofe climática; politicas que poderíamos apelidar como “posicionamento” para um mundo pós-catástrofe, das quais, assegurar o fornecimento de energia vem obviamente no topo da lista.


 


Também assim se explica porque, apesar de todas as evidências e mesmo do posicionamento público de Blair, por exemplo, as elites dominantes não pareçam perturbadas com a ideia. Elas claramente vêem uma situação com algum desconforto, mas um desconforto que terá impacto severo nos pobres e ao qual elas conseguirão sobreviver.


 


Uma redução da população, irá, como disse anteriormente, beneficiar na realidade as classes dominantes – “mais sobra”. Há uma segunda vantagem a ser obtida das catástrofes climatéricas; terão um maior impacto nos seus futuros competidores, a China e a Índia.


 


A jogada não é na realidade uma jogada pois não há nada que possa ser feito para afastar a mudança climática e parece-me que podemos assegurar que os piores efeitos ainda demorarão 50 anos a aparecer. Mais, no curto prazo, a maioria dos efeitos negativos das mudanças climatéricas terão lugar em zonas do planeta sem impacto nos EUA e na Europa, cuja riqueza e tecnologia superiores lhes permitirá “amansar” a tempestade.


 


Com os enormes danos a serem causados pela mudança do clima, até mesmo uma guerra nuclear “localizada” parece ser, do ponto de vista dos EUA, uma coisa pouco arriscada.


 


Resumindo, o cenário que desenhei explica muita coisa sobre as acções do império. Eles pensam que os riscos envolvidos valem a pena e, como a história do império demonstra, sacrificar milhões, mesmo milhares de milhões de vidas, não significa nada para eles. As recompensas ultrapassam bastante a má publicidade, como demonstra a ocupação do Iraque e as ameaças de terríveis consequências se o Irão, a Síria e outros não se conformarem com a orientação dada.


 


 


E então se o resto do mundo se sentir ofendido? Eles calculam que durante a próxima década o grosso da população mundial estará ocupado com outras coisas.


 


Como explicou de forma excelente Robert Newman no seu ensaio “É o capitalismo ou um planeta habitável – não podemos ter os dois


 


 


 


 


Traduzuido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 13 de Fevereiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0206/ini-0394.html

publicado por Alexandre Leite às 14:30

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