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Sábado, 25 de Fevereiro de 2006

Desinformação Mediática



Como a BBC e o Guardian transformam a tortura num problema de Relações Públicas e “arquivam” a ocupação.




 




O ataque da propaganda Ocidental é implacável e muita coisa fica por dizer, muito por causa das reportagens “objectivas”. O que é importante sublinhar nestas alegadas notícias é a natureza insidiosa da forma como os eventos nos são apresentados. Encapota-se em linguagem aparentemente inócua, um completo esquema mental, na forma como os eventos são apresentados. Vejam este caso, da página da BBC:




 




Ataques ao petróleo custaram 6,25 mil milhões de dólares ao Iraque




Peritos iraquianos de petróleo foram atacados em oleodutos





Aaques de insurgentes à indústria iraquiana do petróleo custaram 6,25 mil milhões de dólares em perdas de receitas, durante 2005, de acordo com o ministro Iraquiano do petróleo.



Um total de 186 ataques foram levados a cabo em instalações petrolíferas no último ano, tirando a vida a 47 engenheiros e 91 polícias e seguranças, disse um porta-voz.



O governo Iraquiano tem lutado contra o despertar da violência insurgente, que se seguiu à invasão comandada pelos EUA em 2003.


news.bbc.co.uk/2/hi/business/4729178.stm


 



Escondido neste pedaço de notícia está um conjunto de pressupostos cerca da causa das perdas. Em primeiro lugar, claro que é a ocupação ilegal a responsável pelas perdas e não a resistência, que tem todo o direito a usar os meios necessários para tornar insustentável a ocupação feita pela coligação EUA-Reino Unido, especialmente privá-los do petróleo que pertence ao povo Iraquiano.


Em segundo lugar, é usada a frase “violência insurgente, que se seguiu à invasão comandada pelos EUA em 2003”. Seguramente que a invasão que provocou 100 000 mortes foi violenta, por isso, por que é que o artigo não diz “que se seguiu à violenta invasão”? A “violenta insurgência” é na realidade bastante legítima e uma resposta legal a uma invasão que rompeu todos os tratados internacionais de que fazem parte os EUA e o RU.




 


 


 




 


Noutro artigo da BBC:




 




O Regresso de Abu Ghraib




 




Por Paul Reynolds




Correspondente de Assuntos Internacionais, página de notícias da BBC



 


As imagens intrometem-se nas tensões entre os Muçulmanos e o Ocidente.


 


Abu Ghraib voltou para perseguir o Governo dos EUA.




As últimas fotografias da prisão são outro desastre para a imagem da presença dos EUA no Iraque (formalmente uma ocupação, na altura em que as fotografias foram tiradas, provavelmente em 2003).



Era difícil que tivessem vindo em pior altura, no meio do furor acerca dos cartoons Dinamarqueses e imediatamente depois do aparecimento de um vídeo mostrando tropas Britânicas a baterem em manifestantes Iraquianos.


news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4717486.stm





Reparem que o artigo se refere a divulgação de centenas de fotos e vídeos como um “desastre para a imagem da presença dos EUA no Iraque”. Por isso, para a BBC, é um mero problema de Relações Públicas!




Influnecia assim o relato de crimes nos media dizendo-nos que as fotografias “Era difícil que tivessem vindo em pior altura” mas esquece-se de mencionar o facto que, quer os cartoons Dinamarqueses, quer o vídeo de tropas Britânicas a baterem em manifestantes Iraquianos, são o resultado das políticas Britânicas e Norte Americanas no Iraque e Afeganistão e por incitarem uma movimentação xenófoba em relação aos Muçulmanos.





E numa outra notícia, também da pagina da BBC, podemos ler,





James Coomarasmy, da BBC em Washignton, diz que parece haver pouco apetite político ou da opinião pública em reabrir uma dolorosa ferida, e as imagens estão a ter menos destaque nos media dos EUA do que noutros lados.


news.bbc.co.uk/1/hi/world/middle_east/4718328.stm





Como é que Coomarasmy chegou à conclusão que “parece haver pouco apetite político ou da opinião pública em reabrir uma dolorosa ferida”? Foi porque os media corporativos menorizaram a divulgação das imagens, essa é a razão, e daí percebe-se a pouco barulhenta resposta da opinião pública




Dolorosa ferida? Dolorosa para o governo Americano, que obviamente não quer a exposição pública dos seus crimes, nem quer que as pessoas se envolvam em nenhum tipo de debate sobre a realidade da ocupação ilegal.




É este tipo de “reportagens” da BBC que retira a culpabilidade dos governos Britânico e Americano, nestes crimes contra a humanidade, e que acima de tudo leva depois a uma opinião pública que não condena estes líderes assassinos.





No Guardian também encontramos uma “lavagem” parecida sobre Abu Ghraib, neste caso limitada a dois parágrafos!





Imagens de Abu Graib voltam para perseguir os EUA



Sábado, 18 de Fevereiro de 2006


The Guardian





Ao mesmo tempo que um escândalo sobre a forma como os EUA trataram prisioneiros no Iraque, em Abu Ghraib, estava a escapar-se para um recanto escuro da história Americana, uma companhia de televisão Australiana reacendeu o assunto ao difundir novas e mais chocantes imagens de tortura naquela prisão Iraquiana. Quando a Casa Branca tentava esquivar-se a uma nova onda de raiva internacional, Salon, uma página Americana da internet, colocou 546 imagens de detidos mortos e 1 325 imagens de abusos, de uma fuga de informação de um relatório do exército Americano sobre os abusos.



 


Enquanto a administração combatia este fogo, um outro começou ali perto, quando um relatório da ONU acerca de do complexo militar em Guantanamo pediu o seu encerramento e acusou os EUA de continuarem a usar aí a tortura.


www.guardian.co.uk/international/story/0,,
1712462,00.html?gusrc=rss#article_continue






“História Americana”? “Reacendeu o assunto”? Quer isto dizer que o Guardian não considera tortura, assassinatos e violações um “assunto” apenas porque aconteceram há 2 anos atrás?




Para alem disso, desvia-se do facto de que ignorar os acontecimentos serviu para reduzir a importância da obscenidade que é a ocupação enganando o público ao assumir que eles eram uma excepção em vez da regra da agressão imperial. Está tudo bem para o Guardian, relegando os crimes de guerra para o caixote do lixo da história na sua tentativa de os tornar em pequenas notícias, mas de certeza que para as vítimas e as suas famílias isto não é só historia!




Acontecimentos contemporâneos do género têm sido relegados para a história, pelo Guardian, e com a lógica completamente deturpada, uma “escura” lógica, mas não explica o que é que é “escuro” na morte e torturas oficialmente sancionadas.




Reparem que tanto no Guardian como na BBC não há uma única menção ao facto de todos os acontecimentos que os dois media nos indicaram que não nos preocupássemos com isso, serem um desrespeito das leis internacionais. Deve ser por isso que estes crimes são apenas “escuros” e fazem parte da “história” Americana e um caso de más Relações Públicas para os ocupantes.





Não vos da vontade de vomitar ao sermos diariamente sujeitos a este tipo de relato obsceno dos acontecimentos? Até quando devemos aturar isto? Está na altura destes apologistas do poder imperial serem chamados à atenção!




Escrevam a estes bajuladores do capital e digam-lhes o que pensam!






Helen Boaden: HelenBoaden.Complaints@bbc.co.uk




Paul Reynolds: Paul.Reynolds-INTERNET@bbc.co.uk




Editor do Guardian, Alan Rusbridger: alan.rusbridger@guardian.co.uk




“Provedor do Leitor“do Guardian, Ian Mayes: reader@guardian.co.uk




Simon Tisdall, responsável pelos assuntos do estrangeiro no Guardian: simon.tisdall@guardian.co.uk




 




 




Traduzuido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 18 de Fevereiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0206/ini-0395.html




 




 



publicado por Alexandre Leite às 15:24

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Terça-feira, 21 de Fevereiro de 2006

Recondução do Império - Catástrofe Climatérica e Capitalismo

Há uns tempos atrás fiz referência à ideia de que os dois proeminentes poderosos do império, os EUA e o Reino Unido, chegaram à conclusão que a catástrofe climatérica era inevitável e que tinham de ser dados passos para que o capitalismo sobrevivesse à catástrofe essencialmente intacto.


 


Para alguns, talvez até para muitos, isto pode soar a uma noção um pouco rebuscada, mas eu entendo que os actos que os EUA e o seu fiel aliado, o Reino Unido, têm praticado, apoiam esta ideia.


 


Em primeiro lugar, já não há dúvidas de que, façamos o que fizermos para reduzir o efeito de estufa, já desestabilizámos o delicado equilíbrio que existiu na biosfera durante milhões de anos. Por isso, a curto prazo não há possibilidades de restabelecer esse equilíbrio. Claro que num intervalo de talvez centenas, milhares ou até dezenas de milhares de anos, será alcançado um novo equilíbrio. Uma escala temporal que não é mais do que um piscar de olhos, se medirmos em tempo geológico.


 


As espécies vão e vêm mas a natureza trabalha como um só sistema. Mesmo em movimentos massivos, erupções vulcânicas por exemplo, tendo um imenso impacto no planeta, levando à destruição de ecossistemas inteiros, no final, a natureza consegue absorver tais catástrofes e mesmo atingir um novo equilíbrio.


 


Este é o conceito subjacente à Gaia, que a Terra e o espaço vizinho são um sistema interactivo, com processos biológicos, químicos e geofísicos interagindo numa rede infinitamente complexa de relações e das quais nós temos uma compreensão dos princípios envolvidos mas com tal complexidade só podemos tentar adivinhar o futuro em termos muito gerais.


 


Por exemplo, sabemos que um aumento de CO2 para além de um certo nível induz uma cascata de efeitos cujo produto final não conseguimos determinar absolutamente. Mas, por exemplo, uma generalizada subida da temperatura da Terra que leve ao degelo das calotes polares, leva a uma subida do nível do mar (as actuais previsões são da ordem dos sete metros talvez, nos próximos cem anos). Qual será o impacto global na Terra, só podemos tentar adivinhar.


 


Para a Terra, isto é apenas uma alteração na forma e tamanho das zonas terrestres. As espécies que dependem das calotes polares irão desaparecer ou então hão-de adaptar-se às novas condições, mas a vida continua. Zonas de alimentação, áreas de nidação, rotas migratórias vão desaparecer ou alterar-se, espécies inteiras podem extinguir-se, mas com o tempo, a Natureza vai adaptar-se e novas espécies vão ocupar os seus nichos e eventualmente novos ecossistemas vão ser criados a partir das interacções entre a vida e o novo ambiente.


 


O problema para a humanidade é que nós medimos a passagem do tempo em cem anos talvez, digamos três gerações, e a partir daí torna-se uma abstracção para nós. Por isso, o facto da Gaia se importar pouco com a nossa espécie a não ser olhando para ela como um dos passos do processo evolutivo, não é lá grande consolação.


 


É nesta realidade que temos de ver os actos das nações poderosas do império, pois quaisquer que sejam as suas declarações públicas, é inconcebível acreditar que eles não saibam as consequências do aquecimento global e obviamente que eles querem cá estar no poder quando a poeira assentar (se isso vier a acontecer na nossa escala de três gerações, será essa a grande jogada). A questão é, que passos serão necessários dar no curto prazo para assegurar a continuação do capitalismo, assumindo que há um mundo para ser herdado?


 


Há exemplos históricos que nos podem dar alguma luz sobre o assunto. Por exemplo, as acções dos países líderes do capitalismo, depois das duas grandes guerras do séc.XX, que apesar de tudo provocaram “pouca” destruição comparando com o que estamos a experimentar agora, com o clima a ir pelo cano abaixo. Podemos verificar as principais características:


 



  • Depois da II Guerra Mundial, os EUA emergiram não apenas como um vencedor militar mas também como líder da economia. Entrando e financiando a guerra, o capitalismo americano tornou-se ainda mais rico, o que estimulou uma outra revolução na produção tal como a II Grande Guerra tinha feito. Vastos excedentes de capitais foram acumulados, o que permitiu financiar a reconstrução da Europa tornando-o ainda mais rico.

  • Os “bons tempos” do capitalismo pós-guerra terminaram no final dos anos 70 e com isso veio a necessidade de sacrificar os pobres do planeta e vimos a alimentação e o comércio a serem usados como armas, mesmo que isso implicasse mortes de milhões de pessoas e destruição de culturas inteiras. A guerra do Vietname mostrou os EUA a usarem armas de destruição ambiental massiça a uma escala sem precedentes. Destruição tão grande que, ainda hoje, trinta anos depois, o Vietname não recuperou.

 


O uso de armas químicas em grande escala na sua “guerra contra o narcotráfico” levou a enormes destruições do ambiente e também de pessoas que viviam e trabalhavam na terra.


 


A exportação de processos de produção letais para locais sem regulação, como foi o caso da indústria electrónica, levou o lixo para sítios em países como o México, poluindo a água, a terra e o ar tendo também desastrosos impactos na saúde e bem estar de toda a comunidade.


 



  • E finalmente, claro, o consumo ilimitado de recursos naturais de forma a manter a ordem económica capitalista em marcha.

 


O ponto que quero frisar, ponto esse que é reforçado pela forma como os EUA e os seus aliados usaram a destruição ambiental no Iraque e na ex-Jugoslávia, e ilustrado pela deliberada destruição do abastecimento de água e electricidade, da poluição radioactiva através do uso armas com urânio empobrecido, é que não querem saber das consequências tanto a curto como a longo prazo.


 


E apesar dos resultados de tais políticas sejam vistas como “locais”, na globalidade eles mostram um sistema que não pensa nada na destruição a larga escala para conseguir o lucro, independentemente das consequências.


 


Há um número de indicadores que apontam às elites do capitalismo calculando que podem sobreviver essencialmente intactas a um mundo pós-apocalíptico.


 


Primeiro que tudo, dada a revolução na produção, que permite uma produção industrial numa crescente escala, sem a necessidade de um vasto exército de trabalhadores, significa que, mesmo que morram milhões devido a catástrofes ambientais, tais perdas não terão um impacto adverso na capacidade dos estados líderes do capitalismo.


 


De facto, dado o reaparecimento do modo de ver a vida Malthusiano, a redução a larga escala do trabalho, “mataria dois coelhos com uma cajadada”, resolvendo, de uma assentada, a pressão sobre o capitalismo para que partilhe os seus “mal-amanhados” cereais com o planeta.


 


Entretanto, mesmo que as catástrofes climáticas atinjam grandes centros metropolitanos, a experiência que temos da forma como as classes dirigentes dos EUA lidaram com o furacão Katrina é um augúrio de como lidarão com problemas ainda maiores. Foram, no fundo, os pobres, os “excedentes” que sofreram. Os que estavam bem, tiveram uma interrupção na sua boa vida, mas nada que não os deixasse sobreviver relativamente intactos.


 


Não nos devemos esquecer que as elites dominantes têm os recursos do estado e também têm capital na forma de poupanças que as protegem mesmo das maiores crises económicas. Foi esta a experiência das duas Grandes Guerras e também do “crash” da bolsa de 1929, o maior desastre a atingir o capitalismo.


 


Para além disso, temos a experiência de milhões de pessoas, a princípio da classe média, que foram reabsorvidas nos pobres, depois da adopção do “neo-liberalismo” nos finais dos anos 70. Sacrificar, deste modo, comunidades inteiras, não é novo e se as pessoas sobrevivem ou não a isso, não é uma grande preocupação.


 


A seguir, temos de ver as actuais políticas expansionistas dos EUA e do Reino Unido no contexto da iminente catástrofe climática; politicas que poderíamos apelidar como “posicionamento” para um mundo pós-catástrofe, das quais, assegurar o fornecimento de energia vem obviamente no topo da lista.


 


Também assim se explica porque, apesar de todas as evidências e mesmo do posicionamento público de Blair, por exemplo, as elites dominantes não pareçam perturbadas com a ideia. Elas claramente vêem uma situação com algum desconforto, mas um desconforto que terá impacto severo nos pobres e ao qual elas conseguirão sobreviver.


 


Uma redução da população, irá, como disse anteriormente, beneficiar na realidade as classes dominantes – “mais sobra”. Há uma segunda vantagem a ser obtida das catástrofes climatéricas; terão um maior impacto nos seus futuros competidores, a China e a Índia.


 


A jogada não é na realidade uma jogada pois não há nada que possa ser feito para afastar a mudança climática e parece-me que podemos assegurar que os piores efeitos ainda demorarão 50 anos a aparecer. Mais, no curto prazo, a maioria dos efeitos negativos das mudanças climatéricas terão lugar em zonas do planeta sem impacto nos EUA e na Europa, cuja riqueza e tecnologia superiores lhes permitirá “amansar” a tempestade.


 


Com os enormes danos a serem causados pela mudança do clima, até mesmo uma guerra nuclear “localizada” parece ser, do ponto de vista dos EUA, uma coisa pouco arriscada.


 


Resumindo, o cenário que desenhei explica muita coisa sobre as acções do império. Eles pensam que os riscos envolvidos valem a pena e, como a história do império demonstra, sacrificar milhões, mesmo milhares de milhões de vidas, não significa nada para eles. As recompensas ultrapassam bastante a má publicidade, como demonstra a ocupação do Iraque e as ameaças de terríveis consequências se o Irão, a Síria e outros não se conformarem com a orientação dada.


 


 


E então se o resto do mundo se sentir ofendido? Eles calculam que durante a próxima década o grosso da população mundial estará ocupado com outras coisas.


 


Como explicou de forma excelente Robert Newman no seu ensaio “É o capitalismo ou um planeta habitável – não podemos ter os dois


 


 


 


 


Traduzuido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 13 de Fevereiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0206/ini-0394.html

publicado por Alexandre Leite às 14:30

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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2006

Por que sou um socialista

Não está propriamente na moda, hoje em dia, intitular-se socialista (a não ser que se viva na América do Sul). Estamos constantemente a ser lembrados que essa ideia foi totalmente desacreditada pelo colapso do “Império” Soviético. Morreu a política, o capital triunfa, lembrando a abominável frase “A História morreu”. Na verdade, muita gente está morta, precisamente porque permitimos que aqueles que promulgaram tais visões venenosas capturassem todo o espaço político.


 


Mesmo alguns na “esquerda” vendem a ideia de que as velhas definições de esquerda e direita estão obsoletas (ver “Políticas do Medo: para além da Esquerda e da Direita” de Frank Furedi. Parece que esse “guru” do, ainda vivo, Partido Comunista Revolucionário viu a “luz”. Ver também um outro renegado da esquerda britânica, Mick Hume, editor da “Sp!ked” www.spiked-online.com, um jornal digital para o qual também escreve Furedi, não admira.)


 


Então o que é que faz com que tantos antigos socialistas/marxistas abandonem aquilo que, em muitos casos, foi uma vida dedicada ao socialismo? E porque é que eu escapei? Serei só um dinossauro, recusando-me a aceitar a “realidade” da morte do socialismo, sendo substituído pelo que parece ser um monte de tonta verborreia, pelo menos de acordo com a minha leitura de Furedi e seus colegas? Qualquer ideia de que o capitalismo tem de ser removido, desapareceu até das discussões teóricas. O discurso é feito num vácuo, sem os conceitos de classe, raça e poder, o que quer que eles sejam. O debate é sobre umas vagas ideias dos “valores” e da perda de ideiais.


 


Será que estas características nunca estiveram embutidas no espírito do socialismo, logo desde o início? No fundo, intelectualizar sobre o socialismo é muito bom mas o que realmente o puxa mais e em primeiro lugar é a paixão, uma paixão pela justiça, pela humanidade, a noção de que o capitalismo é um sistema inumano e profundamente injusto, de que apesar das derrotas que nós, socialistas, sofremos, não altera de nenhuma forma, a realidade de um sistema que anda há 500 anos a lixar o planeta e conduziu-nos à presente situação de estarmos na iminência do caos e destruição totais.


 


Derrotados, não apenas na mente, mas também no espírito, parece-me que Furedi, Hume e outros que tais, revelam uma visão da humanidade profundamente “ahistórica” e um cinismo disfarçado numa habilidosa sintaxe. Verdadeiramente “Para além da Esquerda e da Direita”! Para além da compreensão do que motiva as pessoas. Divorciados da realidade de ter que lutar para sobreviver, que é, no fundo, a sorte de 80% da população mundial. Aqueles de nós que vivem na parte rica do mundo e nos intitulamos socialistas tentamos encontrar razões para termos sido desapontados e abandonados aos nossos destinos.


 


Acho que pior ainda é o facto de, em vez de respirarem fundo, dar um passo atrás e rever os acontecimentos, eles andam à procura de “culpados” e ao fazer isso, abandonam a análise. De facto, abandonam virtualmente tudo o que alegadamente foi a base da sua filosofia! Lá se foi o empenhamento.


 


Tudo bem, mas o que é que me torna diferente? Não sou nenhum gigante intelectual, não tenho nenhum acesso especial a informações negadas a estes antigos revolucionários. Será só uma recusa cega em aceitar a realidade? Ao qual eu respondo, basta olharem a vossa volta rapazes; mas por entre tanto pessimismo e derrotismo, as pessoas continuam a lutar e a dar pequenos passos em frente. Só pela primeira grande experiência de construção de uma alternativa ao capitalismo ter falhado, isso não altera a realidade do capitalismo. Se revelou alguma coisa, foi a natureza fundamentalmente falida do capitalismo, de formas que há uns anos atrás eram inimagináveis. Reconhecidamente, o que encontramos é um verdadeiro horror, já que não tem travões no seu comportamento, mas se calhar isso é uma lição que teremos de reaprender.


 


Suponho que a primeira questão a fazer é onde é que a primeira experiência socialista falhou e que lições podemos tirar de tal análise? Não é uma pergunta fácil de responder, tem vários níveis interligados com os quais temos de lidar.


 


Em termos gerais, os assuntos a lidar derivam dos seguintes pontos:


 


1 – Desenvolvimento (ou falta dele)


2 – Oposição do mundo capitalista


3 – A natureza da democracia capitalista


4 – O “progresso”


 


Independentemente do que Marx disse sobre quais os locais onde ele pensou haver as condições óptimas para o socialismo existir, aquilo a que eu chamo “socialismo primitivo” ocorreu nos sítios menos prováveis, em países que eram, digamos, atrasados não apenas em desenvolvimento material mas também em educação e naquilo que, hoje em dia, chamamos a sociedade civil.


 


Relacionado com isto, são os modelos usados para o “desenvolvimento”, nomeadamente, o capitalismo industrial do tipo Americano. Mais especificamente do género que Henry Ford e companhia estavam a criar. Isto é, produção em larga escala, em série, numa linha de montagem. Um método apropriado para o modo capitalista, onde interessava menos, aquilo que era produzido do que o facto de ser possível vendê-lo no “mercado”, determinado principalmente pelos produtores e não pelos consumidores ou mesmo pelas necessidades básicas.


 


Até um certo ponto, um sistema assim, funciona bem para produtos primários como o aço, o cimento, o vidro e acima destes, a electricidade, sem a qual não é possível nenhum desenvolvimento, mas para além destas bases, o conceito da produção de bens de consumo começa a entrar em conflito com aquilo que eu vejo como ideias fundamentais sobre a produção socialista, nomeadamente a sustentabilidade, um trabalho à escala do homem e centrado nele, e a ideia de que desenvolvimento tem a ver com desenvolver as potencialidades humanas para a auto-realização.


 


E é aqui que entra em jogo o segundo problema; a oposição do mundo capitalista, que desde o início esteve determinado a que o socialismo, independentemente da forma que tomasse, falharia e mais importante de tudo, que a ideia fosse vista como um falhanço.


 


Por isso, desde o dia um, a primeira tentativa de construção do socialismo, a União Soviética, foi encostada à parede. Para alem do vasto leque de problemas internos e contradições, teve de lidar com um conjunto poderoso de inimigos externos determinados a fazê-lo falhar.


 


O terceiro e talvez maior problema foi, e ainda é, o assunto da democracia, especificamente, a democracia socialista, algo que eu vejo como bastante distinto da ideia que nos é vendida no ocidente.


 


Apesar disso, o maior falhanço do projecto socialista tem sido no tema dos direitos democráticos e mesmo que a versão capitalista seja à base de fumos e espelhos, o facto é que é a percepção das pessoas que conta. E eu penso que este assunto dos direitos e liberdades está intimamente ligado às condições materiais da vida. Noutras palavras, mesmo que o socialismo não consiga oferecer a abundância do “lixo” consumido que o capitalismo considera tão vital para medir a qualidade de vida, se as pessoas a viver numa sociedade socialista souberem que as decisões estão a ser tomadas por elas, sobre como os recursos são usados, e os efeitos de tais decisões, então estou certo que o assunto da falta de “lixo” diminui de importância como um modo de medir o chamado bem estar.


 


E, para alem disso, parece-me que estes dois assuntos estão muito ligados ao assunto do ambiente e aqui parece-me que o papel da história e das ligações ao nosso passado, tem uma importância significativa, trazido pelo interesse de muitos, no mundo desenvolvido, no nosso passado mas tratado como “herança”.


 


Todos estes aspectos interagem entre eles de um modo bastante complexo. Vejamos, por exemplo, a produção industrial de larga escala, centralizada, no tipo de controlo central estatal que a maioria dos estados socialistas construiu, necessita de uma disciplina hierárquica, de cima para baixo, bem ajustada a um partido único que é ao mesmo tempo o estado, mas na realidade, não reflectindo uma sociedade que advoga a igualdade e, ainda por cima, que baniu as horas extraordinárias e o trabalho”à peça”, por empreitada, ambos elementos essenciais da produção industrial, se tem a intenção de produzir bens ao mais baixo custo. O Trabalho como uma mercadoria encaixa bem em tal sistema, mas não se virmos o Trabalho, mesmo que em teoria, como o dono dos meios de produção.


 


O que estou a tentar fazer aqui, provavelmente de uma forma bastante incompleta, é construir uma imagem do que me parecem ser os elementos essenciais necessários para oferecer, à população exausta e cínica do mundo capitalista, uma alternativa viável.


 


É obvio que aquilo a que o mundo capitalista chama consumismo, atingiu o seu limite:


 


O consumo sem fim e a dívida que o acompanha, em conjunto com a produção industrial desenfreada e os seus efeitos devastadores no planeta, deixou as pessoas infelizes e insatisfeitas, desesperadamente à procura de algo em que acreditar que não envolva consumir.


 


A perda de sentimento de pertença e do nosso lugar na história e o esquema das coisas que põe as pessoas a reverem-se no passado, mas mesmo este, é um passado construído pelos interesses corporativos;


 


A recusa de um envolvimento político como resultado do ataque das corporações, do estado securitário, não apenas a nós mas a todo o planeta;


 


A evidência da corrupção dos negócios e do estado, funcionando de forma não controlada e de cabeça perdida.


 


Vistos como um todo, identificam-se como elementos essenciais para qualquer projecto socialista para o séc. XXI:


 



  1. Temos de terminar com este consumo sem fim. Não está apenas a destruir o planeta mas também esta a destruir a humanidade. De facto, muita gente das sociedades capitalistas expressa uma profunda tristeza e desconforto sobre a vida, por se verem apanhados naquilo que é o vício do consumo.

 



  1. Restaurar o equilíbrio entre a humanidade e o planeta. Cada vez mais, os efeitos do infinito consumo são visíveis tanto a nível local como global. O desafio, para os socialistas é estabelecer a ligação fundamenta entre o consumo capitalista e as mudanças climatéricas.

 



  1. Justiça para os pobres do planeta. Isto significa não apenas romper a relação entre os 2 elementos mencionados acima e os pobres do planeta, mas também romper com o racismo e o sexismo sendo elementos essenciais no processo.

 



  1. Desmantelar as corporações gigantes – ver pontos 1 a 3. Gigantismo este que beneficia uns poucos, é uma séria doença que afecta cada um de nós e tem impactos negativos na vida a todos os níveis.

 



  1. Reinventar a politica do povo – mais ninguém o fará. A Democracia é tomar controlo das nossas vidas e não, entregá-lo a outra pessoa. Votar a cada 5 anos NAO é democracia, é uma imitação. Também é claro que o gigantismo é uma doença não apenas dos negócios mas também dos governos e dos negócios dos estados. O estado corporativo, securitário, do “big brother”, vigilância 24/24, bases de dados e um completo aparelho de controlo. O “grande negócio” e o “grande irmão” andam de mãos dadas.

 



  1. Recuperar o nosso passado e ao fazê-lo, retomar a nossa herança comum. Isto é absolutamente vital, para percebermos de onde vimos e como chegámos até aqui e perceber o nosso problema actual e dar passos na sua resolução.

 


Só aflorei ligeiramente estas ideias e penso que têm de ser mais exploradas, mas entendo que as sementes estão cá presentes. Deformadas e desfocadas e talvez sem direcção, elas no entanto exprimem-se de formas muito concretas e especialmente na forma como o estado respondeu a elas.


 


Assim temos Blair e a sua obsessão pelo “comportamento anti-social”; as tentativas de reinventar o “patriotismo”; a óbvia machadada nas nossas liberdades que não é apenas por causa da “guerra ao terrorismo” mas para lidar com alguma futura resistência à actual ordem; a obsessão de reinventar a historia; tentativas de canalizar para dentro as profundas preocupações das pessoas com o ambiente, em vez de para fora, para a natureza da produção capitalista. Penso que estas são as expressões mais óbvias de uma sociedade que chegou a um beco sem saída. Não como previam os socialistas do sec.XX, um colapso económico, mas um colapso de confiança, sem o qual nenhum estado se consegue suster.


 


E não é preciso ir muito longe. Basta ver como a União Soviética e os estados da Europa de Leste chegaram ao fim. A máquina do estado fez as malas e foi embora, quase literalmente. Não houve praticamente nenhuma resistência apesar do estado ter os meios técnicos para se defender. Como ninguém acreditava nele, o estado foi incapaz de se aguentar e caiu como um castelo de cartas.


 


Esta observação é, penso eu, da maior importância para nós socialistas; se a aplicarmos à actual situação, vemos que até sermos capazes de oferecer uma alternativa (na União Soviética e Europa de Leste pensaram que era o capitalismo), estamos presos a este actual sistema.


 


 


 


Traduzuido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 25 de Janeiro de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0106/ini-0388.html

publicado por Alexandre Leite às 23:30

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