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Quinta-feira, 30 de Março de 2006

A Raça Importa

Nestes dias, escrever sobre “raça” é como por o pé em ramo verde, especialmente se formos branquinhos, mas não se escapa do facto de que o tema da raça é central a praticamente todos os grandes assuntos do nosso tempo. De facto, pode ser argumentado que desde que o imperialismo deixou de ser um brilho no olhar de alguns banqueiros e comerciantes do séc. XVI, definiu a forma como o mundo “evoluiu”.

“A raça importa” [Race Matters] é o título de um livro bem influente escrito pelo “teólogo da libertação” Cornel West, na década de 1980. O título, propositadamente com dois sentidos, pois para além ser importante ter em conta a raça, foi também importante na definição do nosso actual estado das coisas, tendo o tema da raça sido um ponto de clivagem entre dois mundos, o dos que têm e o dos que não têm. Entendo que, sem unirmos estes dois mundos, estamos condenados, pois a questão da raça permite aos estados imperialistas dividir e reinar, como tem feito durante séculos.

Para alguns isto é óbvio, tão óbvio que dividir e reinar tem sido um mantra para a Esquerda, deixando ainda por responder a questão de como se deve lidar com o assunto, pois o tema é sensível e muitos recusam-se simplesmente a debatê-lo, tão poderosos são os demónios que a palavra carrega.

Para alguns, é o sentimento de culpa, para outros, uma mistura de ideias erradas sobre a natureza do racismo, uma situação que as elites dominantes perceberam bem e a exploraram até ao tutano. Jogando com os medos das pessoas, por um lado, e por outro, com os seus sentimentos de culpa por serem “brancos” e a noção subjectiva que ser branco implica uma inapreensível vantagem sobre os que o não são.

Portanto, caímos numa confusão sobre quem somos e sobre o que realmente significa ser branco ou ser preto. Tenho argumentado que o conceito de branco ou de preto é uma ideia inteiramente subjectiva, mais ligada à “cor” da nossa mentalidade, do que à cor da pele, um estado talvez mais bem ilustrado pelo conceito de “de cor” existente na África do Sul. Sem surpresas, os Americanos Pretos passam dificuldades ao lidarem com a noção Sul Africana de “de cor”, vindo eles de uma cultura onde se é, ou branco ou preto (pondo de lado a questão dos Latinos, Asiáticos, etc).

Talvez uma melhor forma de aprofundar o assunto é incluir o género na luta que enfrentamos com a verdadeira libertação do domínio do capital, pois em ambos os casos, a raça e o género não são apenas conceitos fluidos, definidos pelo contexto e história mas são também centrais nos modos como o capital foi capaz de agarrar o planeta e dividi-lo nos últimos 500 anos.

Masculino e feminino, tal como preto e branco, divisões óbvias (e convenientes) entre as pessoas, mas também conceitos fluidos que quando vistos cultural e historicamente, nem um nem outro significam o que muitos imaginariam (e gostariam) que fosse. Para além disso, questões sobre o género, tal como a raça, tocam o coração de questões sobre a identidade. Por isso, não surpreende que aqueles que atravessam a “linha do género” se encontrem em situação parecida com aqueles que atravessam a “linha da raça”.

Ambos provocam profundos sentimentos de insegurança e medo engendrados por uma sociedade que construiu as suas fortunas precisamente em três condições fundamentais da existência, a raça, o género e a classe. Vistas separadamente, não se consegue nenhuma solução, mas se observadas colectivamente é uma imensa tarefa, sendo por isso um desafio para nós, revolucionários [revos], expor as raízes históricas subjacentes às três.

Mas em qualquer dos casos, foram estes os meios através dos quais grandes quantidades de mais valias foram obtidas. Pela escravatura e exploração colonial, por um lado, e pela exploração impiedosa do trabalho feminino, por outro lado. Sem estes, não teria sido possível o lançamento económico da Europa nem a revolução científica que levou ao nascimento do capitalismo industrial.

Nestas situações foi necessária uma explicação racional para justificar, em primeiro lugar, a existência do colonialismo e escravatura e, em segundo lugar, a perda de poder da mulher como parte integrante da vida económica da sociedade pós-feudal. Em ambos os casos, o crescimento da ciência durante a chamada “Idade do Iluminismo” forneceu os meios.

Nos quatro séculos seguintes, a “pesquisa” científica forneceu os meios para a formação de uma fundamentação para a alegada superioridade da “raça branca” e dos homens sobre as mulheres, que atingiu o seu apogeu no séc. XIX, com a emergência de uma série de ideias pseudo-científicas. Ideias, que de uma forma ou de outra, ainda estão presentes nos nossos dias.

Estas falsas ideias estarem agora disfarçadas com descobertas ainda mais poderosas, especialmente no campo da genética, não altera a ficção fundamental, só as torna mais aceitáveis, pois agora podem ser abrilhantadas com uma ciência alegadamente objectiva e neutral. Desta forma ficam ainda mais dificilmente entendidas pela maior parte das pessoas sem uma compreensão alargada da genética e da história da vida neste planeta.

No entanto, de forma aparentemente paradoxal, o crescimento da genética moderna tem sido acompanhado por um retrocesso a ideias fundamentalistas praticamente medievais sobre, por exemplo, as origens da vida. Contudo, num exame mais atento, as duas visões aparentemente singulares, são unidas por ideologias de racismo e sexismo, e para apoiá-las temos a ideologia fundamental do capitalismo baseada numa apropriação ilegítima das ideias de Darwin sobre a evolução, principalmente, a “sobrevivência dos mais aptos” e igualmente ideias falsas sobre a “natureza humana”.

Como é que ideias tão arcaicas e reaccionárias conseguiram reaparecer com tanta força? Em primeiro lugar, claro, nunca desapareceram realmente, pois constituem o coração da ideologia capitalista e, em segundo lugar, o falhanço da alternativa socialista deu nova vida a estas velhas ideias, fortemente desacreditadas.

Quão poderosas são estas ideias, é bastante visível nos grandes meios de comunicação e especialmente na publicidade. Somado a isto, a alteração da natureza das economias “avançadas” do capitalismo, também soltou os medos e inseguranças dos homens, e dos homens brancos em particular. As mulheres a constituírem pelo menos metade, e nalguns casos a maioria, da força de trabalho, quase sempre não sindicalizadas e muitas vezes em trabalho temporário, minaram o poder da velha classe trabalhadora masculina.

Tal como o surgimento do capitalismo industrial destruiu as redes de solidariedade existentes, baseadas na terra e no trabalho artesanal, também as revoluções na produção que destruíram a velha classe trabalhadora da indústria também destruíram as redes de solidariedade baseadas nos sindicatos e partidos políticos da classe trabalhadora.

A acompanhar esta transformação da força de trabalho tem estado o fenómeno do trabalho imigrante, barato, não especializado. Mais um resultado do colonialismo e da sua última manifestação, a “globalização”. E claro, a exportação da fabricação para antigas colónias, mais uma vez usando principalmente mão-de-obra barata, de mulheres e trabalhadores não sindicalizados.

O que parece óbvio é que a situação actual é o resultado de uma continuada exploração capitalista já com uma extensão de cinco séculos, e que o falhanço do socialismo em fornecer uma alternativa viável fez com que se dinamizassem forças que dependem acima de tudo, da aceitação por parte da maioria dos trabalhadores, da ideologia da raça e género promulgadas pelo estado capitalista, apesar de apresentadas com nova roupagem.

Deve também ser evidente que com as nossas redes de solidariedade e protecção arrasadas, ficamos à mercê de ideias reaccionárias, que o surgimento da filosofia socialista no séx.XX, pelo menos em teoria, havia consignado à história.

Também deve ser óbvio que, a não ser que confrontemos estes dois males irmãos, racismo e sexismo como ponto central na luta pela emancipação humana, lidar com o imperialismo será uma tarefa no limiar do impossível. É só por nós, do chamado mundo desenvolvido, não vermos que somos todos vítimas de tão infiltrada e destrutiva ideologia, que os actuais ataques devastadores são possíveis.

A questão de, qual será o melhor modo para confrontar este problema fundamental não é, no entanto, fácil de resolver, pois muita da natureza desta ideologia de racismo, está dependente de factores subjectivos baseados no medo e na insegurança, que estão dentro da cabeça das pessoas. Mesmo só, falar sobre isso, transporta muitos perigos reais e imaginários.

Mas para que não restem dúvidas, os nossos conceitos de raça, género e classe, são produtos de um processo histórico, não são de nenhuma forma, intrínsecos a nós, apesar de toda a propaganda e lavagem cerebral de sentido contrário. Isto não quer dizer que, ultrapassar séculos impregnados de preconceitos e presunções sobre o que é ser humano, seja fácil. Mas também, não há nada que valha a pena ser atingido que seja fácil.

 

 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 21 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0403.html

publicado por Alexandre Leite às 00:26

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Quarta-feira, 15 de Março de 2006

Estar bem na vida

Tendo sido criado na “mãe dos impérios”, é difícil perceber a forma como a maior parte do mundo olha para nós. Mesmo se, como no meu caso, tivermos vivido noutras culturas, continua a ser difícil “quebrar as correntes que nos unem” a uma cortina de propaganda (ou será ao contrário?)


 


Ao mesmo tempo, também é difícil, para mim, perceber a relativa indiferença das pessoas no mundo desenvolvido como sendo causada unicamente pela propaganda, mesmo reconhecendo a sua importância na construção de uma realidade alternativa imperialista.


 


No passado, os desafios ao capitalismo vieram de uma classe trabalhadora organizada, uma classe trabalhadora que tinha raízes em gerações de luta para alcançar um nível de vida melhor e para ter uma voz política que pudesse articular os seus desejos. Também tínhamos uma “elite” intelectual radical capaz de formular e traduzir os seus desejos em programas (podemos debater noutra altura a sua eficácia).


 


Esse tempo já passou. Hoje, pondo de lado uma elite administrativa/profissional, é seguro dizer que os trabalhadores, num país como o Reino Unido, são compostos por dois grupos principais; uma “sub-classe” alienada e sem posses (talvez 15-20%), pertencentes a “estratos baixos”, os idosos, os desempregados, uma parte importante dos jovens e imigrantes, nenhum dos quais tem uma voz, nem através de “interesses” nem por partidos políticos. O segundo, e de longe, o maior grupo (talvez 60-70%), consiste em pessoas que têm um nível de vida decente, que têm a sua própria casa e que beneficiaram da posição privilegiada do Reino Unido no mundo.


 


E é este segundo grupo, o alvo principal da guerra de propaganda feita pelo estado e pelos grandes negócios. Têm muito a perder com alguma alteração das circunstâncias económicas. As suas vidas são definidas pelos empréstimos através dos quais “obtêm” o seu precário nível de vida, e é esta dívida que os liga, mais fortemente do que quaisquer correntes conseguiriam fazer, à preservação do status quo.


 


E de qualquer forma, quaisquer inquietações que tenham sobre a situação são neutralizadas pela dura realidade de um sistema político que efectivamente os desligou ao negar-lhes uma voz.


 


De que outra forma se consegue explicar o facto de que, em face dos horrendos crimes que o nosso governo cometeu e de uma elite política dominante que todos os dias se revela como uma elite absolutamente corrupta e servindo os seus próprios interesses, não se tenha mobilizado uma significativa oposição excepto pelo reconhecimento de que a maior parte da nossa população optou por entregar o seu destino ao império?


 


Tudo bem, pode ser argumentado que é uma visão desfocada, que em última análise tal situação irá fazer ricochete em todos nós, sem excepção. Uma situação exemplificada pelo tema da catástrofe climatérica que quando finalmente nos atingir, atingirá todos sem excepção, independentemente das nossos pontos de vista ou das nossas acções.


 


Mas argumentar isto é reconhecer que a luta é inútil, que podemos arrumar as tralhas e ir para as montanhas (não que isso vá melhorar alguma coisa).


 


A situação com que estamos confrontados não tem precedente na história humana. A alteração do clima do planeta é realmente óbvia numa escala global. Os seus efeitos a longo prazo são desconhecidos mas claramente prejudiciais. Pior, estas mudanças vão atingir mais fortemente aqueles do fim da linha de um imperialismo predatório, os mais pobres da população do planeta.


 


Se não for por outra razão, estamos por isso todos perdidos, a não ser que uma percentagem significativa da população do mundo desenvolvido resolva partilhar a sua sorte com os 80% da população do planeta que já sofrem sob as garras do capitalismo. A questão é, como conseguir aquilo que é um radical re-alinhamento da nossa consciência colectiva?


 


Isto não é algo que se consegue da noite para o dia, talvez nem mesmo numa geração se consiga, mas que outra escolha temos? Esta é uma questão que eu pessoalmente lidei durante anos. E embora reconhecendo que os media independentes têm feito um trabalho excelente ao exporem os argumentos fraudulentos das nossas elites políticas, a questão de, qual a melhor maneira de derrubá-los ainda está nas mãos de uma “esquerda” que deve a sua herança de luta a um tempo que já não existe.


 


O Internacionalismo é considerado “fora de moda”, pertencendo à época que referi acima, no entanto o paradoxo de viver num mundo “globalizado” não está esquecido para mim. Claro que “globalizado” se refere ao mundo do capital e não às pessoas. Por um lado, as nossas elites dominantes afirmam ter globalizado as relações económicas mas quando lhes interessa ainda falam de um mundo dividido, de interesses nacionais. Conseguem comer o nosso bolo e manter o deles.


 


Há uns tempos atrás, entrevistei George Galloway do Partido do Respeito [Respect Party] e perguntei-lhe se achava que a mudança social só podia ser atingida pela internacionalização da luta. A sua resposta foi que essa luta é impossível, os problemas de coordenação e mais precisamente os interesses de nações ou de facções iriam sempre vencer.


Os grandes temas com que nos confrontamos são globais, não nacionais, quer seja o clima quer a matança no Iraque e Afeganistão.


Por isso, apesar da oposição ter sempre de ser feita localmente, as lutas tornam-se cada vez mais insignificantes, se não tiverem um contexto global.


Então, a questão para mim é, como coordenar as lutas da forma mais eficaz, ao mesmo tempo que reconhecemos que ainda vivemos em estados nação e são guiados pelos impactos da situação internacional a nível local?


Por um lado temos o movimento “anti-globalização” virtualmente sem liderança, o “movimento pela justiça global” e por aí adiante. Colectivamente, representam muitos milhões de pessoas, mas o mesmo pode ser dito dos media independentes que tidos em conjunto são compostos por muitos milhões de leitores mas existem na forma de milhares de expressões individuais que competem uns com os outros pelos leitores e guardam invejosos o seu cantinho. Tentativas de coordenar este vasto conjunto de vozes não deram em nada, nem ao menos há uma plataforma de entendimento.


Mas em face de uma rede hegemónica de companhias globais de media que falam a uma, corporativa voz, a não ser que consigamos algum tipo de “massa crítica” que fale a uma voz a nível internacional, articulando os principais temas com que estamos confrontados, estamos sujeitos a permanecer marginalizados e fragmentados.


No lado positivo, não há dúvidas que o fenómeno grosseiramente chamado de “blogging” (que meteu algum medo aos media estatais/corporativos, que tendo passado por várias fases, desde ignorando-o, passando por dizer mal dele e finalmente constrangendo-o) oferece a possibilidade de conseguir a “massa crítica” de que falei acima, mas como?


Ligar as palavras “América” e “ditadura” é uma tarefa diária dos “blogs” de esquerda, que se alimentam da ideia de que as políticas da administração Bush, desde o 11 de Setembro, estão a levar o país a um totalitarismo. – Ditadura é o perigo – Jonhathan Raban, The Guardian, 13/03/2006


Para além disso, concordaria que o sucesso dos “blogs” foi conseguido em grande parte por defeito, isto é, a desconfiança nos principais media resultou de uma generalizada perda de confiança no processo político como um todo, mais do que sendo o resultado do sucesso de uns media independentes.


Foram feitas várias tentativas de criar uns media independentes e globais, mais especialmente o Indymedia, mas infelizmente o Indymedia parece pertencer à oposição “sem liderança”, cheia de paixão e empenhamento mas muito desligada do público que pretende atingir. Não digo isto para menosprezar o Indymedia, as suas conquistas são impressionantes, mas continua nas margens da expressão política.


É neste contexto que devemos olhar para o movimento específico que surgiu como resultado da invasão e ocupação do Iraque e Afeganistão, o movimento anti-guerra. Se alguma vez houve uma oportunidade perdida, foi o movimento anti-guerra, especialmente no Reino Unido e EUA, os dois países que são centrais na luta contra o império.


Em ambos os casos, ao confinarem os seus objectivos ao combate à ocupação do Iraque e Afeganistão, perderam a oportunidade para alargar o debate e a luta, especialmente no Reino Unido. Considero que neste país o movimento anti-guerra pertence ao que eu chamo um movimento político oportunista, o Partido Socialista dos Trabalhadores [Socialist Workers Party], que conseguiu sozinho transformar a questão em, “Muçulmanos contra o resto”, divorciando assim a luta, de temas mais amplos de uma sociedade prestes a desintegrar-se socialmente. Ao fazer isso, jogou o jogo do governo Blair, que jogou a “carta Muçulmanos” com grande eficácia.


Não há dúvidas que por trás da aparente aceitação do status quo, se esconde uma inquietude e mal-estar que se expressam de várias formas, desde o suspirar por um passado ilusório até vingar-se com um consumismo frenético ou o entorpecer dos sentidos com tudo o que aparece, desde droga até a programas de televisão do género “big brother” [“reality tv”]. Estes assuntos estiveram manifestamente afastados do movimento “só” anti-guerra, no entanto, estes assuntos são centrais na luta pela transformação do nosso planeta em desintegração.


Não faz sentido lutar contra a obscenidade que é a destruição do Iraque pelo governo Blair, sem ser no contexto da impetuosa destruição do nosso planeta pelo imperialismo. A louca procura do “crescimento”, o vício do consumismo, são parte integrante da invasão do Iraque. É vital que as ligações entre eles sejam feitas.


 


 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 13 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0400.html
publicado por Alexandre Leite às 14:04

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Domingo, 12 de Março de 2006

Uma Nação na Desonestidade / L'affaire Berlusconi

Uma Nação na Desonestidade


 


A história que se segue (L’afaire Berlusconi) foi originalmente enviada apenas aos subscritores da Newsletter do InI (vejam o que estão a perder em não a subscrever!) mas como os media e o governo fizeram um trabalho tão bom de esconder esta imundice ofensiva que é o governo Trabalhista e os seus membros corruptos, pensei que era melhor generalizar a sua publicação e acrescentar algumas coisas.


 


Se houve alguma coisa “conquistada” pela política, no pós-guerra, no Reino Unido (e de uma maneira geral nas chamadas democracias Ocidentais), foi a destruição da participação política pelo que se costumava chamar, as massas. Por exemplo, o Partido Trabalhista perdeu talvez um quarto de milhão de membros, desde que chegou ao poder em 1997.


 


Em geral, podemos dizer que o falhanço do socialismo em atrair grandes apoios teve um papel significativo neste processo, tendo como resultado um cínico fatalismo sobre a classe política dominante independentemente das suas alegadas filiações (isto é, Trabalhistas, Conservadores).


 


Desta forma, a exaltação que acompanhou a vitoria Trabalhista [Labour] de 1997 mostrou um eleitorado sinceramente chateado com 20 anos de poder Conservador [Tory] e outro que sinceramente acreditava que um governo Trabalhista traria verdadeiras mudanças para melhor.


 


No entanto, qualquer análise à política pós-guerra no Reino Unido revela um Partido “Trabalhista” firmemente agarrado ao capitalismo, não obstante o seu alegado “rosto humano”. Em grande medida, o Partido Trabalhista desenvolveu programas e políticas que um governo Conservador (até 1979) não foi capaz, muito por causa de uma classe trabalhadora organizada embora o Partido Trabalhista fosse cúmplice.


 


Explorando as suas credenciais “dos trabalhadores”, sucessivos governos “Trabalhistas” abriram a porta a governos Conservadores cada vez mais à direita. A Democracia foi reduzida a nada mais que organizar eleições; Trabalhistas, Conservadores, Trabalhistas, Conservadores... ad infinitum... até o Partido Conservador se tornar irrelevante, com os Democratas Liberais [Liberal Democrats] a serem uma ineficaz “válvula de segurança”.


 


E de facto, isto foi e é, o principal “sucesso” do governo Blair. Conseguiu um dos serviços com mais sucesso na história da política. Com efeito, desenvolveu um programa “de dupla face” ao apresentar-se publicamente como um governo progressista e “modernizador”, enquanto fazia os programas mais regressivos e reaccionários da sua história. Foi capaz de fazer isso porque recrutou um completo exército de propagandistas e “bem falantes” que conseguiram disfarçar um programa regressivo e reaccionário e apresentá-lo como progressista.


 


Vejam, por exemplo, o que Blair fez ao Serviço Nacional de Saúde. Conseguiu privatizar segmentos inteiros pelas portas das traseiras, algo que nem a Thatcher conseguiu (ela só consegui cortar-lhes os fundos). À forca de propaganda eficaz, o governo Trabalhista fez com que a privatização parecesse modernização! Nada é o que parece. Explicações tornam-se exercícios de circunlocução e confusão. Lendo a “política” Trabalhista para a saúde ou educação, por exemplo, ninguém consegue fazer a mínima ideia do seu real significado. Os reais objectivos são enterrados sob camadas de generalidades e jargões, com o verdadeiro objectivo sendo só revelado pelas consequências, isto é, depois de um parlamento indolente ter carimbado as leis, ficando assim tarde de mais.


 


E ao explorar efectivamente um Partido Conservador moribundo como o partido de um rico e privilegiado Velho Poder Instalado [Old Establishment] (que sem duvida, é), conseguiu esconder a realidade do Novo Partido Trabalhista ser o partido das corruptas corporações internacionais e dos seus desonestos penduras “novos ricos”; o “Novo Poder Instalado”.


 


L’affaire Berlusconi epitomiza esta nova classe política do capital internacional, composto por servos administrativos dos grandes negócios, advogados, investidores bancários, donos dos media e directores de corporações farmacêuticas, da energia e do armamento. Estes são, em todos os sentidos das palavras, os Novos Imperialistas.


 


Mas nada teria sido possível sem desligar o processo político que fazia funcionar a democracia mesmo com os constrangimentos e limitações do capitalismo. Um processo que necessitou, em primeiro lugar, de um poder político consolidado numa mão cheia de mandantes, o Gabinete de Blair e o seu exército de “conselheiros”, e em segundo lugar, um encorajamento aos cidadãos para se preocuparem apenas em consumir e apreciarem a “boa vida” mesmo que isso signifique fazer créditos de milhões e milhões de libras. De facto, do melhor para escravizar as pessoas com correntes invisíveis que os unem fortemente ao status quo.


 


Entretanto, uma classe política ambígua e cínica, habilmente assistida por um grupinho de profissionais de media que são, em todos os sentidos, intrínsecos da manutenção do sistema, tem sido capaz de mascarar a realidade do que foi feito ao processo democrático.


 


Em vez disso, foi-nos apresentado um conjunto de falsos “assuntos”, todos resultantes de um sistema que retirou o poder a grandes secções da sociedade, especialmente jovens, idosos, doentes, pobres e pessoas com pouca formação.


 


O governo de Blair, alinhando-se pelo mínimo denominador comum representado por uns media mercenários sob a forma de jornais como o Sun e o seu proprietário, Rupert Murdoch (e exemplificado com os Berlusconis), tem efectivamente explorado os frustrados, alienados e os seus medos e inseguranças.


 


Não é por acaso que as corporações mais próximas do governo de Blair são as gigantes corporações de media tais como a News Corp de Murdoch e as grandes companhias de energia, Shell/BP.


 


Foi isto que tornou o L’affarire Berlusconi tão perigoso pois tinha o potencial de expor a sujidade escondida do Novo Partido Trabalhista e as suas relações incestuosas com gangsters como Berlusconi e os aldrabões Tessa Jowel e o seu marido David Mills.


 


 


 


 


L’affaire Berlusconi


 


Para aqueles que não vivem aqui [Reino Unido] e que não estão a par do último escândalo que lavou como uma onda de esgotos a classe política desta nação mergulhada nas trevas da ignorância, vou tentar resumir o mais sucintamente possível.


 


Tessa Jowel, Secretária de Estado da Cultura, e casada com David Mills, um manhoso advogado que alegadamente recebeu um suborno de 334 000 libras (equivalente a cerca de 485 000 euros) de Berlusconi (um antigo cliente/sócio), o Primeiro Ministro de Itália, em troca por um testemunho que ajudaria a exonerar Berlusconi das acusações de corrupção de que estava a ser alvo.


 


Primeiro, o suborno, perdão, o “presente”, passou por cerca de meia dúzia de companhias bancárias diferentes espalhadas pelo planeta, antes de ir parar ao Reino Unido. Mas, como fazê-lo chegar às ganantes mãos do marido de Jowell? Eles (ou, de acordo com Mills, só ele) decidiram fazer um segundo empréstimo, hipotecando a sua casa de Londres por 400 000 libras (equivalente a cerca de 580 000 euros), meteram o dinheiro ao bolso e usaram o suborno, perdão, o “presente”, para pagar o empréstimo.


 


Brilhante, excepto os advogados Italianos que não estão apenas a investigar Berlusconi mas também o desonesto marido-advogado de Jowell e deixaram escapar para a imprensa um conjunto de documentos incriminatórios sobre as actividade de Mills, incluindo uma confissão escrita por Mills que teria mentido como um louco para tentar livrar Berlusconi das culpas.


 


Mills chama aos 334 000 libras, um “presente”, e diz que apenas os descreveu como um suborno para “obter aconselhamento fiscal” dos seus contabilistas. Acreditem nisso e também acreditarão na seguinte “explicação” da carta original que ele escreveu como sendo


“completamente ridícula”, acrescentando: “ é aflitivo como é possível inventar tal coisa”.


 


Numa parte da sua carta aos contabilistas, ele disse


 


“Mantive contactos próximos com o pessoal do B[erlusconi]... eles também souberam que a forma como mostrei as minhas provas (não disse mentiras, mas dei a volta ao assunto, digamos assim) mantiveram o Sr. B fora de grandes problemas. Ele teria tido problemas se eu dissesse tudo o que sabia.” “Marido de Jowell e a questão do presente.” 19 de Fevereiro de 2006


observer.guardian.co.uk/politics/story/0,,1713145,00.html?gusrc=rss


 


(Sendo um media à parte, a BBC diz ter publicado o texto completo desta carta, mas esta e outras secções não aparecem na história da BBC. Vejam lá! Ver “Texto completo: Carta de David Miils”, 27 de Fevereiro de 2006. news.bbc.co.uk/1/hi/uk_politics/4757248.stm e comparar com a historia do Guardian de cima).


 


Quando a história rebentou, o problema de Jowell foi ter de mostrar que não estava envolvida com os negócios sujos do seu maridinho, já que a casa estava em nome dos dois. Levantavam-se questões de conflito de interesses.


 


Ela afirma que assinou documentos sobre a hipoteca mas aparentemente sem perguntar ao marido de onde vinham as 344 000 libras. Temos de imaginar os dois sentados e o marido saca de uns papéis e por acaso pede-lhe para os assinar, “Claro”, diz ela, “sem problemas, onde é que assino?” Sem fazer perguntas. Isto dá um novo significado à frase “a ver navios”. Segundo as regras governamentais, os ministros devem declarar qualquer “presente” dado aos seus cônjuges, para evitar qualquer conflito de interesses.


 


Soube-se que o Sr. Mills regularmente tomava a seu cargo a tarefa de informar a Secretaria Permanente do Ministério da Cultura [DCMS] de mudanças em posições negociais, incluídas no âmbito de 60 directorias.


 


Não achou, no entanto, necessário informar os cidadãos do empréstimo/hipoteca que fez em conjunto com a sua mulher e que depois foi pago suavemente com dinheiro de uma conta offshore.


 


O casal fez cinco empréstimos separados para a sua casa naquilo que parece ser um esquema para ganhar dinheiro rapidamente e capitalizar oportunidades de investimento.


politics.guardian.co.uk/labour/story/0,,1720470,00.html


 


Na semana passada, num esforço para limpar o nome de Jowell, ela foi “investigada” (uso esta palavra ser grande exactidão) pela Secretaria do Gabinete que depois entregou a sua “investigação” a Blair, que a declarou inocente de qualquer acusação. Parece a raposa a guardar o galinheiro!


 


O Código Ministerial, diz em determinada parte


 


“Os Ministros são pessoalmente responsáveis por decidirem as suas acções e comportamentos, à luz do Código e por justificarem as suas acções e comportamentos no Parlamento. O Código não é um livro de regras nem o papel da Secretaria do Gabinete ou de outros oficiais é fazê-lo cumprir ou investigar Ministros, apesar de poderem aconselhar Ministros de forma privada em matérias cobertas pelo Código.”


 


O chamado Código é uma completa farsa. A Secretaria do Gabinete teve cerca de 24 horas para “investigar” l’affaire Berlusconi. Imaginem o que é tentar seguir os movimentos de dinheiro por um carrossel de companhias de fachada, que contabilistas judiciais experientes teriam dificuldade em seguir, e depois fazer a ligação com o conhecimento de Jowell, ou não, da proveniência do dinheiro.


Mas, claro, a poeira não ia limpar Jowell, por isso, neste fim-de-semana, Jowell e o seu marido decidiram “separar-se” e ele resolveu dar um giro até parte incerta.


 


E mais uma vez, sem surpresas, Mills diz que “está desgostoso pelas afirmações de que a sua separação é simulada”, dizendo ao Times que “A ideia de que pessoas pudessem separar-se por razões artificiais – simplesmente não é assim que os seres humanos se comportam.” Ai não?


 


Vários escrivãos servis do governo Trabalhista saltaram em sua defesa incluindo a terrível Margaret Beckett que disse que Jowell devia “ser forte” pois esta a ser sujeita a uma “caça às bruxas”. Fortes palavras, sem duvida.


 


Talvez pior ainda, são as acções do Ministério do Interior [Home Office] que foi sondado pelo pelos procuradores italianos sobre uma possível extradição de Mills para Itália, para ser acusado de fraude fiscal e lavagem de dinheiro. Em vez de ajudar, eles passaram todas as informações à embaixada Italiana em Londres! Em face disto, parece que o Ministério do Interior é cúmplice numa tentativa de fazer descarrilar a investigação. Lembrem-se que Blair e Berlusconi são grandes amigos.


 


O Ministério do Interior disse


 


“Nos finais de 2004 o Gabinete de Investigação de Grandes Fraudes [Serious Fraud Office] recebeu um pedido de um procurador de Milão de aconselhamento legal sobre em que circunstancias seria possível extraditar David Mills segundo a lei do Reino Unido, baseado em possíveis acusações sobre ele. O pedido foi passado ao Ministério Público [Crown Prosecution Service] que fez o aconselhamento legal e depois o Ministério do Interior passou à embaixada Italiana em Maio de 2005, já que os pedidos de extradição são normalmente consuzidos por canais diplomáticos.”


 


Quando questionado por que razão tinham passado o caso para a Embaixada Italiana de Londres, o Ministério do Interior disse que se os procuradores conseguissem pedir a extradição isso levaria a


 


“circunstâncias que ninguém iria tolerar,”. “Inquérito a Jowell não irá até o Ministério do Interior”


politics.guardian.co.uk/labour/story/0,,1720742,00.html?gusrc=rss


 


Pois claro! Compreensivelmente, os procuradores italianos ficaram bastante chateados com aquilo que lhes pareceu uma interferência do Ministério do Interior na sua tentativa de extradição de Mills. Alegam que os oficiais do Ministério do Interior “espalharam informação reservada por um grande número de pessoas” comprometendo assim a sua investigação, uma alegação que o Ministério do Interior nega, claro.


 


L’affaire Berlusconi é apenas o último de uma longa lista de desonestidades que têm acontecido, revelando uma classe dominante cínica que abandonou, há muito, qualquer pretensão em representar os cidadãos e um governo trabalhista que está grandemente envolvido e na cama com o grande capital. Relações próximas como as que Blair tem com Berlusconi, amiguinho dos neo-fascistas, tipificam um governo que sabe bem que grande parte do eleitorado Britânico se desligou da politica quase totalmente, pensando que, quaisquer que sejam os seus pontos de vista, eles serão completamente ignorados (a não ser que coincidam com a posição neo-liberal de Blair).


 


Não tenham dúvidas que aquilo que soubemos nas passadas duas semanas é apenas a ponta do iceberg, mas não esperem de pé que os chamados media de referência cavem bem fundo no monte de estrume que é o governo Trabalhista.


 


 


Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 9 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0399.html

publicado por Alexandre Leite às 11:32

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