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Quarta-feira, 15 de Março de 2006

Estar bem na vida

Tendo sido criado na “mãe dos impérios”, é difícil perceber a forma como a maior parte do mundo olha para nós. Mesmo se, como no meu caso, tivermos vivido noutras culturas, continua a ser difícil “quebrar as correntes que nos unem” a uma cortina de propaganda (ou será ao contrário?)


 


Ao mesmo tempo, também é difícil, para mim, perceber a relativa indiferença das pessoas no mundo desenvolvido como sendo causada unicamente pela propaganda, mesmo reconhecendo a sua importância na construção de uma realidade alternativa imperialista.


 


No passado, os desafios ao capitalismo vieram de uma classe trabalhadora organizada, uma classe trabalhadora que tinha raízes em gerações de luta para alcançar um nível de vida melhor e para ter uma voz política que pudesse articular os seus desejos. Também tínhamos uma “elite” intelectual radical capaz de formular e traduzir os seus desejos em programas (podemos debater noutra altura a sua eficácia).


 


Esse tempo já passou. Hoje, pondo de lado uma elite administrativa/profissional, é seguro dizer que os trabalhadores, num país como o Reino Unido, são compostos por dois grupos principais; uma “sub-classe” alienada e sem posses (talvez 15-20%), pertencentes a “estratos baixos”, os idosos, os desempregados, uma parte importante dos jovens e imigrantes, nenhum dos quais tem uma voz, nem através de “interesses” nem por partidos políticos. O segundo, e de longe, o maior grupo (talvez 60-70%), consiste em pessoas que têm um nível de vida decente, que têm a sua própria casa e que beneficiaram da posição privilegiada do Reino Unido no mundo.


 


E é este segundo grupo, o alvo principal da guerra de propaganda feita pelo estado e pelos grandes negócios. Têm muito a perder com alguma alteração das circunstâncias económicas. As suas vidas são definidas pelos empréstimos através dos quais “obtêm” o seu precário nível de vida, e é esta dívida que os liga, mais fortemente do que quaisquer correntes conseguiriam fazer, à preservação do status quo.


 


E de qualquer forma, quaisquer inquietações que tenham sobre a situação são neutralizadas pela dura realidade de um sistema político que efectivamente os desligou ao negar-lhes uma voz.


 


De que outra forma se consegue explicar o facto de que, em face dos horrendos crimes que o nosso governo cometeu e de uma elite política dominante que todos os dias se revela como uma elite absolutamente corrupta e servindo os seus próprios interesses, não se tenha mobilizado uma significativa oposição excepto pelo reconhecimento de que a maior parte da nossa população optou por entregar o seu destino ao império?


 


Tudo bem, pode ser argumentado que é uma visão desfocada, que em última análise tal situação irá fazer ricochete em todos nós, sem excepção. Uma situação exemplificada pelo tema da catástrofe climatérica que quando finalmente nos atingir, atingirá todos sem excepção, independentemente das nossos pontos de vista ou das nossas acções.


 


Mas argumentar isto é reconhecer que a luta é inútil, que podemos arrumar as tralhas e ir para as montanhas (não que isso vá melhorar alguma coisa).


 


A situação com que estamos confrontados não tem precedente na história humana. A alteração do clima do planeta é realmente óbvia numa escala global. Os seus efeitos a longo prazo são desconhecidos mas claramente prejudiciais. Pior, estas mudanças vão atingir mais fortemente aqueles do fim da linha de um imperialismo predatório, os mais pobres da população do planeta.


 


Se não for por outra razão, estamos por isso todos perdidos, a não ser que uma percentagem significativa da população do mundo desenvolvido resolva partilhar a sua sorte com os 80% da população do planeta que já sofrem sob as garras do capitalismo. A questão é, como conseguir aquilo que é um radical re-alinhamento da nossa consciência colectiva?


 


Isto não é algo que se consegue da noite para o dia, talvez nem mesmo numa geração se consiga, mas que outra escolha temos? Esta é uma questão que eu pessoalmente lidei durante anos. E embora reconhecendo que os media independentes têm feito um trabalho excelente ao exporem os argumentos fraudulentos das nossas elites políticas, a questão de, qual a melhor maneira de derrubá-los ainda está nas mãos de uma “esquerda” que deve a sua herança de luta a um tempo que já não existe.


 


O Internacionalismo é considerado “fora de moda”, pertencendo à época que referi acima, no entanto o paradoxo de viver num mundo “globalizado” não está esquecido para mim. Claro que “globalizado” se refere ao mundo do capital e não às pessoas. Por um lado, as nossas elites dominantes afirmam ter globalizado as relações económicas mas quando lhes interessa ainda falam de um mundo dividido, de interesses nacionais. Conseguem comer o nosso bolo e manter o deles.


 


Há uns tempos atrás, entrevistei George Galloway do Partido do Respeito [Respect Party] e perguntei-lhe se achava que a mudança social só podia ser atingida pela internacionalização da luta. A sua resposta foi que essa luta é impossível, os problemas de coordenação e mais precisamente os interesses de nações ou de facções iriam sempre vencer.


Os grandes temas com que nos confrontamos são globais, não nacionais, quer seja o clima quer a matança no Iraque e Afeganistão.


Por isso, apesar da oposição ter sempre de ser feita localmente, as lutas tornam-se cada vez mais insignificantes, se não tiverem um contexto global.


Então, a questão para mim é, como coordenar as lutas da forma mais eficaz, ao mesmo tempo que reconhecemos que ainda vivemos em estados nação e são guiados pelos impactos da situação internacional a nível local?


Por um lado temos o movimento “anti-globalização” virtualmente sem liderança, o “movimento pela justiça global” e por aí adiante. Colectivamente, representam muitos milhões de pessoas, mas o mesmo pode ser dito dos media independentes que tidos em conjunto são compostos por muitos milhões de leitores mas existem na forma de milhares de expressões individuais que competem uns com os outros pelos leitores e guardam invejosos o seu cantinho. Tentativas de coordenar este vasto conjunto de vozes não deram em nada, nem ao menos há uma plataforma de entendimento.


Mas em face de uma rede hegemónica de companhias globais de media que falam a uma, corporativa voz, a não ser que consigamos algum tipo de “massa crítica” que fale a uma voz a nível internacional, articulando os principais temas com que estamos confrontados, estamos sujeitos a permanecer marginalizados e fragmentados.


No lado positivo, não há dúvidas que o fenómeno grosseiramente chamado de “blogging” (que meteu algum medo aos media estatais/corporativos, que tendo passado por várias fases, desde ignorando-o, passando por dizer mal dele e finalmente constrangendo-o) oferece a possibilidade de conseguir a “massa crítica” de que falei acima, mas como?


Ligar as palavras “América” e “ditadura” é uma tarefa diária dos “blogs” de esquerda, que se alimentam da ideia de que as políticas da administração Bush, desde o 11 de Setembro, estão a levar o país a um totalitarismo. – Ditadura é o perigo – Jonhathan Raban, The Guardian, 13/03/2006


Para além disso, concordaria que o sucesso dos “blogs” foi conseguido em grande parte por defeito, isto é, a desconfiança nos principais media resultou de uma generalizada perda de confiança no processo político como um todo, mais do que sendo o resultado do sucesso de uns media independentes.


Foram feitas várias tentativas de criar uns media independentes e globais, mais especialmente o Indymedia, mas infelizmente o Indymedia parece pertencer à oposição “sem liderança”, cheia de paixão e empenhamento mas muito desligada do público que pretende atingir. Não digo isto para menosprezar o Indymedia, as suas conquistas são impressionantes, mas continua nas margens da expressão política.


É neste contexto que devemos olhar para o movimento específico que surgiu como resultado da invasão e ocupação do Iraque e Afeganistão, o movimento anti-guerra. Se alguma vez houve uma oportunidade perdida, foi o movimento anti-guerra, especialmente no Reino Unido e EUA, os dois países que são centrais na luta contra o império.


Em ambos os casos, ao confinarem os seus objectivos ao combate à ocupação do Iraque e Afeganistão, perderam a oportunidade para alargar o debate e a luta, especialmente no Reino Unido. Considero que neste país o movimento anti-guerra pertence ao que eu chamo um movimento político oportunista, o Partido Socialista dos Trabalhadores [Socialist Workers Party], que conseguiu sozinho transformar a questão em, “Muçulmanos contra o resto”, divorciando assim a luta, de temas mais amplos de uma sociedade prestes a desintegrar-se socialmente. Ao fazer isso, jogou o jogo do governo Blair, que jogou a “carta Muçulmanos” com grande eficácia.


Não há dúvidas que por trás da aparente aceitação do status quo, se esconde uma inquietude e mal-estar que se expressam de várias formas, desde o suspirar por um passado ilusório até vingar-se com um consumismo frenético ou o entorpecer dos sentidos com tudo o que aparece, desde droga até a programas de televisão do género “big brother” [“reality tv”]. Estes assuntos estiveram manifestamente afastados do movimento “só” anti-guerra, no entanto, estes assuntos são centrais na luta pela transformação do nosso planeta em desintegração.


Não faz sentido lutar contra a obscenidade que é a destruição do Iraque pelo governo Blair, sem ser no contexto da impetuosa destruição do nosso planeta pelo imperialismo. A louca procura do “crescimento”, o vício do consumismo, são parte integrante da invasão do Iraque. É vital que as ligações entre eles sejam feitas.


 


 

Traduzido por Alexandre Leite, a partir de um texto de William Bowles publicado a 13 de Março de 2006 em http://www.williambowles.info/ini/2006/0306/ini-0400.html
publicado por Alexandre Leite às 14:04

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