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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Gestão de Crises

 Talvez a tarefa mais difícil, quando tentamos lidar com os acontecimentos actuais, seja estabelecer a ligação entre a economia e a política. A imprensa corporativa nunca apresenta um acontecimento, por exemplo a invasão do Iraque, como estando relacionado com a economia. De facto, qualquer tentativa de o fazer é ridicularizada (dizendo por exemplo que nem tudo no mundo é por causa do petróleo). O modus operandi é, simplificar estupidamente, é o bem contra o mal, não confundam a cabeça das pessoas com as complexidades da vida real, pois se fizerem isso, vão ter de dar muitas mais explicações sobre porque é que os países agem como agem, não batendo certo com a forma como os acontecimentos nos são apresentados pelos grandes meios de comunicação de referência.

 

No meu último artigo, ‘Leaving the scene of the crime’, eu citei uma reportagem do jornal “Independent” sobre a “Crise do Suez”, de Mary Dejevsky que é um exemplo perfeito de como este processo é feito, onde o Império, quer passado, presente ou futuro é reduzido ao nível da psicologia ou de personalidades. Derrota é uma “humilhação nacional”. Sim, há uma passagem sobre economia, mas nunca a apresenta como a causa da invasão Anglo-Franco-Israelita do Egipto. Em vez disso, é metida no contexto da Guerra Fria e no desejo de Nasser de “tomar o controlo do Canal do Suez”. Porque é que ele quereria fazer isso, não é explicado, excepto no contexto do desejo pessoal de poder ou um desejo de humilhar a “Grã-Bretanha”. Diz-nos Dejevesky

 

“A crise do Suez começou quando do jovem e enérgico Presidente do Egipto, Gamal Abdul Nasser, tomou controlo do Canal do Suez depois dos EUA e da Grã-Bretanha se terem recusado a financiar a Barragem de Assuão.”

 

Reparem que de acordo com Dejevsky, Nasser fez isso em grande parte por ser “jovem e enérgico”. Dejevsky também não explica as razões da recusa britânica e norte-americana em financiar a construção da Barragem de Assuão. Razões fundamentalmente económicas desaparecem por baixo do perfil psicológico do Nasser, que era “jovem e enérgico”, seguramente porque tinha muita testosterona a circular na cabeça, veias árabes.

 

Por isso, a causa das guerras que nos é inevitavelmente apresentada é que há uns indivíduos no poder que são maus, indecentes, que querem tomar conta do mundo ou destruir a “civilização” ou, como no caso do Nasser, têm uma espécie de necessidade adolescente de provar que são um “homem a sério”. Uma vez reduzidas a causas tão simplistas, torna-se mais fácil esconder as mais profundas razões por que os países vão para a guerra. Elas até podem existir, apesar de tudo, mesmo para alguém como Dejevesky, essas razões são impossíveis de ignorar, mas tentam-nos fazer crer que tais causas são menos importantes.

Vejam por exemplo a Coreia do Norte, em que nos dizem que Kim Sung II, o presidente da República Democrática Popular da Coreia (RDPC) quer ter armas nucleares para “conquistar” a Coreia do Sul e destruir o “Ocidente”. Ele quer fazer isso basicamente porque é um maluco, um psicopata, ou então, mais uma vez, tem muita testosterona a circular nas suas quentes, veias asiáticas?

         Qualquer que seja a razão, podem ter a certeza que a economia não tem nada a ver com a “crise nuclear coreana”. Mas procurem um bocadinho mais e temos uma imagem distinta dos acontecimentos.

“Nas conversações a seis, a 29 de Setembro de 2005, uma declaração de princípios sobre o desarmamento nuclear, foi assinada entre os EUA e a RDPC… Apesar de, no acordo, ter sido pedido aos EUA para normalizarem as relações com a Coreia do Norte, literalmente no dia seguinte anunciaram a imposição de sanções a contas bancárias norte-coreanas do Banco Delta Asia, sedeado em Macau, com a acusação de estarem a ser usadas para movimentar moeda contrafeita.” [1]

 

         Mais de um ano depois, os EUA ainda não apresentaram nenhuma prova que apoie essa acusação.

 

“Os norte-coreanos disseram que iriam responder às evidências de contrafacção, prendendo os envolvidos e confiscando o seu equipamento. ‘Ambos os lados podem dialogar num órgão consultivo no qual se pode ganhar confiança. Teria um impacto muito positivo na resolução do assunto nuclear da península coreana’, disse Ri. A delegação também sugeriu que se abrisse uma conta norte-coreana numa instituição financeira norte-americana e colocada na supervisão dos EUA, para afastar todas as suspeitas… De forma não surpreendente, as ofertas da Coreia do Norte foram rejeitadas.” [2]

 

         Então, porque é que os EUA inventaram a história da contrafacção da Coreia do Norte?

 

“As medidas tomadas contra o Banco Delta Asia privaram a Coreia do Norte de um importante ponto de acesso a moeda estrangeira, e também funcionaram como um mecanismo de ampliação dos efeitos das sanções. Ao colocar o Banco Delta Asia na lista negra, os EUA fizeram com que outras instituições financeiras reduzissem os negócios com este banco, e ele se visse forçado a cortar relações com a Coreia do Norte. Rapidamente a campanha tomou proporções globais. O Departamento do Tesouro dos EUA enviou cartas de aviso a bancos de todo o mundo, tendo como consequência uma onda mundial de bancos a encerrarem contas da Coreia do Norte. Com medo de retaliações dos EUA, os bancos acharam prudente encerrar as contas da Coreia do Norte em vez de arriscar ficar na lista negra e terminarem o seu negócio. O Sub-Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, Stuart Levey, afirmou que as sanções e as ameaças dos EUA fizeram uma “enorme pressão” na RDPC, levando a um “efeito de bola de neve”. As acções dos EUA pretendiam minar quaisquer hipóteses de um acordo pacífico.” [3]

 

Claramente, a “mudança de regime” é o objectivo das acções dos EUA, através da recusa de acesso à RDPC a moeda estrangeira e desse modo limitar a sua capacidade comercial, enfraquecendo a já fraca economia da Coreia do Norte. Porquê sujeitar o povo coreano a tais privações quando nos é dito que é o bem-estar do povo coreano que motiva as acções do Ocidente?

 

Então que raio se passa aqui? Porque é que os EUA assinam um acordo que reduz a as tensões, normaliza relações e conduziria ao afastamento de algum tipo de “ameaça nuclear” por parte da RDPC, e depois fazem tudo o possível para sabotar esse acordo? Mais uma coisa, porque é que isto não aparece nos meios de comunicação de referência? Porquê esconder ao público informação tão importante, especialmente quando nos estão a dizer que a Coreia do Norte é alegadamente uma ameaça à paz?

Alguém se atreve a sugerir que esses meios de comunicação têm algum tipo de agenda escondida, que não querem que saibamos as verdadeiras razões por trás dos acontecimentos e das acções dos nossos líderes políticos? De que outra forma se explica que tais informações não apareçam na cobertura noticiosa sobre a Coreia do Norte?

Aqueles de nós que têm uma visão céptica dos acontecimentos da forma que nos são apresentados, não vão precisar de ser convencidos, mas e a grande maioria do público que não se apercebe que está a ser a mal informada e enganada?

Obviamente coexistem aqui duas realidades, uma apresentada pelos grandes meios de comunicação e a outra realidade é a do verdadeiro poder a ser exercido por verdadeiras razões, não sendo a economia a menos importante. Entretanto, a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, no fundo, qualquer país que trace um caminho que não bata certo com os objectivos da economia dos EUA, sentirá a força punitiva do seu poder, quer o líder seja um “jovem enérgico” ou um “populista demagogo” ou qualquer outro epíteto difamatório que sirva para a situação.

A sugestão de que os grandes meios de comunicação se portam deste modo é claramente ridicularizada como as loucuras dos “conspiracionistas” ou ainda pior, essa crítica seria, por si só, a expressão de uma agenda própria escondida. No entanto, de que outro modo se pode explicar a total ausência de referências às reais acções dos EUA na sua relação com a RDPC, que não pelo facto de que os grandes meios de comunicação têm uma agenda não-tão-escondida-assim para manter os factos cruciais afastados do público, especialmente se eles têm alguma importância no controlo das crises engendradas tais como a “ameaça nuclear” da Coreia do Norte. Não interessa expor as acções furtivas dos EUA quando o tom dos media são contínuas histórias sobre as “ambições nucleares” da RDPC e do seu perigoso líder.

E reparem como as “crises” vão e vêm, pelo menos na imprensa corporativa. Num dia o mundo está à beira de uma convulsão nuclear e no dia seguinte não se encontra nem uma palavra sobre as “ambições” nucleares da Coreia do Norte. Mas vistos na continuidade da cobertura das notícias, os acontecimentos consistem numa “crise” atrás da outra. Nunca, claro, por causa do Ocidente. São sempre uns asiáticos indecentes, uns árabes traiçoeiros, ou uns latinos de sangue quente, etc. De facto, é uma infinita liturgia de crises e ameaças ao “nosso” modo de vida, mas estas são sempre “ameaças” que existem num esplêndido isolamento da realidade.

“Nós” somos sempre vítimas de um conjunto de trapaceiros e de todo o tipo de loucos e psicopatas assanhados que aparecem e desaparecem de acordo com os critérios ditados pelas acções e objectivos dos nossos governantes. Mas sem a cumplicidade activa dos media corporativos, tais “ameaças” seriam impossíveis de vender. Assim, palavras aparentemente inócuas como as da Mary Dejevsky, que têm o propósito de ser nada mais do que os seus “pensamentos” sobre as suas ainda pouco desenvolvidas impressões sobre a “cirse do Suez” (“A minha geração cresceu na sombra do Suez”), assumem um papel mais ameaçador, pois reforçam a visão imperial do mundo, de um mundo de “nós contra eles”, onde “nós” somos as vítimas, mesmo se, como sugere Dejevsky, seja apenas um ataque fatal aos nossos idos egos imperiais.

Mas é assim que são dão os enganos, e o que torna tais “pensamentos” tão perigosos, é que mascaram a realidade subjacente dos interesses económicos e de poder (por exemplo, a posse do Canal do Suez, que apesar de atravessar o Egipto e correr em terras egípcias, foi “tomado” por Nasser, no universo atabalhoado da Dejevsky, onde a posse é um direito exclusivo daqueles com poder para o conseguir).

Desafiem esse poder e podem ter a certeza que irão ter o que merecem. Primeiro são diabolizados pelos meios de comunicação de referência, depois são isolados pela mítica “comunidade internacional” (termo jornalístico para os grandes poderes económicos dos EUA e da Europa), e segue-se uma dose pouco saudável de explosivos, só para o caso de não terem percebido a mensagem.

Notas

[1]. Para a história completa, ver ‘Why Bush is Seeking Confrontation With North Korea’, por GREGORY ELICH
[2]. idem
[3]. idem

 

Texto publicado por William Bowles no dia 30 de Outubro de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/1006/ini-0459.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:51

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

Ilusão e Realidade

Por volta de 1990, quando eu estava a viver em Nova Iorque, eu, com mais duas ou três pessoas, fomos convidados para um serão na Missão Norte-Coreana nas Nações Unidas onde fomos agraciados com uma espantosa e deliciosa refeição de cozinha coreana, seguida da visualização de um vídeo interminável e aborrecido (a meu ver, de ocidental farto), que tentava apresentar a situação da Coreia do Norte.


Depois de terminado o vídeo, os nossos anfitriões, que eram anfitriões educados, modestos e maravilhosos, perguntaram-nos o que pensávamos sobre o vídeo, o que me colocou numa situação extremamente desconfortável porque, como peça de propaganda dirigida a uma audiência ocidental, era uma nódoa. No fundo, cenas intermináveis de enormes manifestações, fábricas, campos, amplas avenidas e citações de Kim il Sung, dificilmente iriam persuadir uma audiência americana, que cresceu com uma dieta de imagens lustrosas e sedutoras da superioridade do modo de vida ocidental, de que a Coreia do Norte era a melhor coisa que apareceu desde a invenção do pão fatiado.

Tentar explicar isto aos nossos anfitriões não foi fácil e, como era de esperar, não consegui, ou eles foram tão educados que não me disseram. O que isto revelou foi a imensa distância entre as nossas culturas. Os nossos anfitriões coreanos sabiam tanto do modo de vida americano como nós tínhamos do deles, independentemente da nossa simpatia por eles.

Era óbvio que eles estavam genuinamente orgulhosos das suas conquistas, que tinham sido conseguidas com muito custo, com a perda de 4 milhões de pessoas durante a Guerra Coreana e a destruição total do seu país pelas mãos “acção policial” liderada pelos EUA, como era eufemisticamente chamada.

A destruição norte-americana da Coreia é apenas um entre tantos crimes de guerra de cometidos pelo imperialismo, dos quais temos sido completamente mantidos na ignorância. Tivéssemos nós sido devidamente informados da horrenda escala de destruição, tanto humana como material, e penso que os acontecimentos poderiam ter terminado de forma diferente.

É normalmente aceite, pelo menos na Esquerda, que sem um esforço de propaganda em massa, persuadindo a maioria da população a apoiar as acções imperialistas, estas seriam, muito provavelmente, impossíveis. Se isto é verdade ou não, não é fácil de provar, pois não se tem em conta até que ponto fomos seduzidos pelos nossos próprios interesses em apoiar o projecto imperialista.

Mas se há uma coisa em que a Esquerda é boa, é por os pontos nos “ii” e o tracinho no “t”, simplesmente porque nós temos de fazer a nossa pesquisa de forma a tentar provar o nosso caso, já que a imprensa corporativa irá atacar o mínimo erro para nos deitar abaixo e provar que estamos enganados.

A História é, para nós, uma arma poderosa com a qual se investiga e explica o presente; como as coisas chegaram ao ponto em que estão. No entanto, isto não é algo fácil de conseguir. Requer um imenso tempo e esforço e depois tem de ser destilado em algo de fácil digestão.

Num artigo anterior, mencionei um livro, Strange Liberators [Estranhos Libertadores] de Gregory Elich, que é uma análise bastante detalhada da política externa dos EUA e especialmente sobre como as suas palavras vão completamente ao contrário das suas acções.

O livro é grande (400 páginas), por isso, em vez de fazer uma análise completa à obra, eu pensei que fazia mais sentido dividir em partes, a primeira das quais será sobre a Coreia do Norte.

Strange Liberators debruça-se durante três capítulos sobre a forma como os EUA lidaram com a desafortunada Coreia do Norte e ao fazer isso rebenta com o mito deste membro do chamado “eixo do mal”.

Independentemente do que vocês acham da versão do socialismo da Coreia do Norte, ou mesmo do seu historial em direitos humanos (dependendo do que se entende por direitos humanos), os registos são claros no que toca à forma como os EUA humilharam, ameaçaram e literalmente deixaram à fome, a população da Coreia do Norte, até capitularem às principais exigências norte-americanas.

O livro de Elich documenta este processo de forma minuciosa, repleto de páginas com referências. O problema para nós, claro está, é que não temos acesso aos meios de comunicação em massa de forma a podermos explicar a realidade da situação, nem é fácil reduzir, como faz a imprensa corporativa, acções ou intenções a frases com impacto que possam ser digeridas por populações alimentadas literalmente há gerações com uma dieta de papa política.

Então como é que se consegue transmitir a natureza de um estado predador e imperialista, a todos os que ainda não estão convertidos, sem cair no abuso da estatística nem em versões de frases chave da esquerda?

Elich consegue-o com uma boa dose de sarcasmo impregnado de ironia, e depois jorra os factos por cima, sendo uma boa fonte em que podemos confiar, por exemplo:

“Os EUA, guiados pela preocupação da paz e estabilidade na região, tentaram pacientemente encorajar uma relutante Coreia do Norte a negociar. Esta é a imagem popular, tão entranhada como inexacta.” (pág. 63)

Mas ter acesso aos factos é quase como uma escavação arqueológica em que poucos têm habilidade, compreensão ou paciência para a empreender. Felizmente, temos pessoas como Elich, que fazem a escavação por nós.

Os capítulos de Elich sobre a Coreia do Norte focam especificamente a alegada ameaça nuclear da Coreia do Norte aos Estados Unidos, uma acusação que seria risível se não fosse o facto de, usando a “ameaça nuclear” como pretexto, os Estados Unidos terem estado extremamente perto, em inúmeras ocasiões, de desencadearem uma guerra nuclear com a península coreana!

Esta simples realidade bastaria, tenho a certeza, para persuadir muitos mais milhões de pessoas sobre as reais intenções dos EUA, se fosse mais conhecida. Mas claro, os grandes meios de comunicação têm subtilmente escondido os factos ao público.

Em primeiro lugar, os EUA apanharam uma boa porrada durante a Guerra da Coreia e tal como a Guerra do Vietname, não ia ser perdoada nem esquecida, e desde aí, a mera existência da RDPC (República Democrática Popular da Coreia) é uma afronta ao capital norte-americano. Foram feitos todos os esforços, excepto a guerra, para apagar a RDPC da face do planeta.

Nos anos 1990, com uma mudança no governo da Coreia do Sul, foram dados passos em direcção a uma certa aproximação entre o Norte e o Sul, o que do ponto de vista dos EUA era algo definitivamente inaceitável.

Foram feitos todos os esforços para sabotar o restabelecimento de relações entre a Coreia do Norte e a do Sul, como se pode ver pelo retomar do jogo de guerra “Team Spirit” em 1993, suspenso por George H.W. Bush e reiniciado por Clinton (lá se vai a ideia daqueles que continuam a pensar que uma administração dos Democratas seria uma mudança para melhor!).

O “Team Spirit” envolvia bombistas, mísseis cruzeiro e forças navais, e só para chatear ainda mais os norte-coreanos, Clinton anunciou que alguns dos mísseis nucleares que tinham estado apontados para a antiga União Soviética, seriam redireccionados para a Coreia do Norte.

Previsivelmente, os norte-coreanos anunciaram que então iriam abandonar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNPAN), mas no seguimento de conversações com os EUA, a RDPC afirmou que continuaria como signatária.

Mas imediatamente, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) exigiu que a RDPC abrisse todas as instalações nucleares a inspecções, “algo que a agência nunca tinha exigido a nenhuma nação … um pedido que foi instigado por oficiais dos EUA … As relações aqueceram mais quando a Coreia do Norte descobriu que os inspectores da AIEA estava a passar informações secretas a oficiais norte-americanos.” (pág. 63)

A propaganda dos EUA reforçou-se com o aviso de Clinton de que “à Coreia do Norte, não se pode permitir que desenvolva a bomba nuclear.” (pág. 64). Não foi apresentada nenhuma prova para suportar esta alegação. Como toda a propaganda Goebleliana, foi aceite em virtude da contínua repetição pela administração Clinton e pelos seus papagaios dos grandes meios de comunicação.

Decorriam os preparativos para a guerra.

“Nós preparamos um plano detalhado para atacar as instalações [nucleares] de Yongbyon com bombas de precisão. Estávamos altamente confiantes que poderiam ser destruídas sem causar uma reacção nuclear que libertasse radioactividade para a atmosfera … anunciou o Secretário de Estado Adjunto da Defesa, Ashton Carter … Anos mais tarde, o governo sul-coreano efectuou uma simulação de um ataque a Yongbyon e conclui que se todos os edifícios do complexo fossem atingidos, um quarto da população, num raio de 50km, morreria num espaço de horas.” (pág. 64)

Algo pior estava a ser preparado. O pensamento no Pentágono era, “já que estamos nisto, porque não apanhá-los a todos?” (pág. 65). Felizmente, o presidente da Coreia do Sul, Kim Young-Sam, não foi na conversa dos loucos dos EUA.

“Kim avisou o Embaixador norte-americano James Laney que outra guerra transformaria toda a Coreia num banho de sangue.” (págs. 64-65)

No seguimento de um conversa telefónica de 32 minutos, entre Clinton e Sam, os EUA concordaram relutantemente em não “conquistar” a Coreia do Norte. Mas nos doze anos seguintes, os EUA levaram a cabo uma guerra com a Coreia do Norte, por outros meios, incluindo esfomear a população até à submissão, o que levou directa ou indirectamente, à morte de talvez um milhão de pessoas, muitas delas crianças.

Até aos dias de hoje, seguiram-se outras ameaças de ataques militares, incluindo o uso de armas nucleares, ameaças que Elich assinala na sua total realidade horrorosa e de sangue frio.

Por esta altura, já deve ser óbvio que o Iraque, e agora o Irão, são meramente a continuação da política que os EUA têm vindo a fazer nos últimos cinquenta anos; “Se não fizeres como eu digo, rebentamos contigo. Vamos esfomear-te e isolar-te, e forçar os nossos aliados a apoiarem-nos.”

É preciso que perguntem a vocês próprios que possíveis razões farão de um país pequeno, atacado pela pobreza, que nunca atacou ninguém, uma ameaça tão grande aos EUA e que justifique assassinatos, mentiras, subterfúgios e sabotagem.

Os EUA e o seu grande parceiro, o Reino Unido, com a cumplicidade dos media corporativos detidos pelo estado fizeram com que se acreditasse que a Coreia do Norte, se por acaso tivesse os meios (que obviamente não tem), arriscaria a destruição total, invadindo os Estados Unidos da América. Que ideia ridícula!

A resposta, como acertadamente assinala Elich, é simples: lucro. E aqui, Elich vai de certa forma contra a ortodoxia prevalecente, afirmando categoricamente que a invasão do Iraque e do Afeganistão, longe de serem falhanços, são um estrondoso sucesso, quando medidas em dólares.

“Os líderes ocidentais podem enganar-se na facilidade com que serão capazes de impor a sua vontade no Iraque e tomar o controlo da sua economia, mas não há nada de irracional na decisão de ir para a guerra. As baixas têm sido suportadas quase só pelos cidadãos vulgares do Iraque e pelos soldados ocupantes que se ferem e morrem. As despesas são pagas através dos impostos, saídos principalmente dos bolsos dos trabalhadores, enquanto o sector das corporações é que recolhe os ganhos. Os ganhos têm sido reais para essa classe. O facto de muitos dos objectivos da administração Bush não terem sido cumpridos, não exclui o facto de alguns terem sido alcançados. Mesmo ganhos parciais são valorizados, quando o custo é suportado por outros. Que o Iraque, virado do avesso pela guerra, seja um lugar perigoso e agonizante, não preocupa os donos das corporações que nunca lá põem os pés e para quem o Iraque representa um investimento lucrativo.” (pág. 22)

É a mesma lógica fria, que impulsionou a política norte-americana relativa à Coreia do Norte, durante mais de cinquenta anos. Dito de forma simples, desafiem o capitalismo dos EUA e serão destruídos.

 

Strange Liberators – Militarism, Mayhem and the Pursuit of Profit [Estranhos Libertadores – Militarismo, Desordem e a Busca do Lucro] de Gregory Elich. Llumina Press, 2006. (amazon.co.uk, amazon.com)

 

 

Texto publicado por William Bowles em http://williambowles.info/ini/2006/0906/ini-0451.html a 23 de Setembro de 2006, e traduzido por Alexandre Leite.

 

publicado por Alexandre Leite às 20:55

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