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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Gestão de Crises

 Talvez a tarefa mais difícil, quando tentamos lidar com os acontecimentos actuais, seja estabelecer a ligação entre a economia e a política. A imprensa corporativa nunca apresenta um acontecimento, por exemplo a invasão do Iraque, como estando relacionado com a economia. De facto, qualquer tentativa de o fazer é ridicularizada (dizendo por exemplo que nem tudo no mundo é por causa do petróleo). O modus operandi é, simplificar estupidamente, é o bem contra o mal, não confundam a cabeça das pessoas com as complexidades da vida real, pois se fizerem isso, vão ter de dar muitas mais explicações sobre porque é que os países agem como agem, não batendo certo com a forma como os acontecimentos nos são apresentados pelos grandes meios de comunicação de referência.

 

No meu último artigo, ‘Leaving the scene of the crime’, eu citei uma reportagem do jornal “Independent” sobre a “Crise do Suez”, de Mary Dejevsky que é um exemplo perfeito de como este processo é feito, onde o Império, quer passado, presente ou futuro é reduzido ao nível da psicologia ou de personalidades. Derrota é uma “humilhação nacional”. Sim, há uma passagem sobre economia, mas nunca a apresenta como a causa da invasão Anglo-Franco-Israelita do Egipto. Em vez disso, é metida no contexto da Guerra Fria e no desejo de Nasser de “tomar o controlo do Canal do Suez”. Porque é que ele quereria fazer isso, não é explicado, excepto no contexto do desejo pessoal de poder ou um desejo de humilhar a “Grã-Bretanha”. Diz-nos Dejevesky

 

“A crise do Suez começou quando do jovem e enérgico Presidente do Egipto, Gamal Abdul Nasser, tomou controlo do Canal do Suez depois dos EUA e da Grã-Bretanha se terem recusado a financiar a Barragem de Assuão.”

 

Reparem que de acordo com Dejevsky, Nasser fez isso em grande parte por ser “jovem e enérgico”. Dejevsky também não explica as razões da recusa britânica e norte-americana em financiar a construção da Barragem de Assuão. Razões fundamentalmente económicas desaparecem por baixo do perfil psicológico do Nasser, que era “jovem e enérgico”, seguramente porque tinha muita testosterona a circular na cabeça, veias árabes.

 

Por isso, a causa das guerras que nos é inevitavelmente apresentada é que há uns indivíduos no poder que são maus, indecentes, que querem tomar conta do mundo ou destruir a “civilização” ou, como no caso do Nasser, têm uma espécie de necessidade adolescente de provar que são um “homem a sério”. Uma vez reduzidas a causas tão simplistas, torna-se mais fácil esconder as mais profundas razões por que os países vão para a guerra. Elas até podem existir, apesar de tudo, mesmo para alguém como Dejevesky, essas razões são impossíveis de ignorar, mas tentam-nos fazer crer que tais causas são menos importantes.

Vejam por exemplo a Coreia do Norte, em que nos dizem que Kim Sung II, o presidente da República Democrática Popular da Coreia (RDPC) quer ter armas nucleares para “conquistar” a Coreia do Sul e destruir o “Ocidente”. Ele quer fazer isso basicamente porque é um maluco, um psicopata, ou então, mais uma vez, tem muita testosterona a circular nas suas quentes, veias asiáticas?

         Qualquer que seja a razão, podem ter a certeza que a economia não tem nada a ver com a “crise nuclear coreana”. Mas procurem um bocadinho mais e temos uma imagem distinta dos acontecimentos.

“Nas conversações a seis, a 29 de Setembro de 2005, uma declaração de princípios sobre o desarmamento nuclear, foi assinada entre os EUA e a RDPC… Apesar de, no acordo, ter sido pedido aos EUA para normalizarem as relações com a Coreia do Norte, literalmente no dia seguinte anunciaram a imposição de sanções a contas bancárias norte-coreanas do Banco Delta Asia, sedeado em Macau, com a acusação de estarem a ser usadas para movimentar moeda contrafeita.” [1]

 

         Mais de um ano depois, os EUA ainda não apresentaram nenhuma prova que apoie essa acusação.

 

“Os norte-coreanos disseram que iriam responder às evidências de contrafacção, prendendo os envolvidos e confiscando o seu equipamento. ‘Ambos os lados podem dialogar num órgão consultivo no qual se pode ganhar confiança. Teria um impacto muito positivo na resolução do assunto nuclear da península coreana’, disse Ri. A delegação também sugeriu que se abrisse uma conta norte-coreana numa instituição financeira norte-americana e colocada na supervisão dos EUA, para afastar todas as suspeitas… De forma não surpreendente, as ofertas da Coreia do Norte foram rejeitadas.” [2]

 

         Então, porque é que os EUA inventaram a história da contrafacção da Coreia do Norte?

 

“As medidas tomadas contra o Banco Delta Asia privaram a Coreia do Norte de um importante ponto de acesso a moeda estrangeira, e também funcionaram como um mecanismo de ampliação dos efeitos das sanções. Ao colocar o Banco Delta Asia na lista negra, os EUA fizeram com que outras instituições financeiras reduzissem os negócios com este banco, e ele se visse forçado a cortar relações com a Coreia do Norte. Rapidamente a campanha tomou proporções globais. O Departamento do Tesouro dos EUA enviou cartas de aviso a bancos de todo o mundo, tendo como consequência uma onda mundial de bancos a encerrarem contas da Coreia do Norte. Com medo de retaliações dos EUA, os bancos acharam prudente encerrar as contas da Coreia do Norte em vez de arriscar ficar na lista negra e terminarem o seu negócio. O Sub-Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, Stuart Levey, afirmou que as sanções e as ameaças dos EUA fizeram uma “enorme pressão” na RDPC, levando a um “efeito de bola de neve”. As acções dos EUA pretendiam minar quaisquer hipóteses de um acordo pacífico.” [3]

 

Claramente, a “mudança de regime” é o objectivo das acções dos EUA, através da recusa de acesso à RDPC a moeda estrangeira e desse modo limitar a sua capacidade comercial, enfraquecendo a já fraca economia da Coreia do Norte. Porquê sujeitar o povo coreano a tais privações quando nos é dito que é o bem-estar do povo coreano que motiva as acções do Ocidente?

 

Então que raio se passa aqui? Porque é que os EUA assinam um acordo que reduz a as tensões, normaliza relações e conduziria ao afastamento de algum tipo de “ameaça nuclear” por parte da RDPC, e depois fazem tudo o possível para sabotar esse acordo? Mais uma coisa, porque é que isto não aparece nos meios de comunicação de referência? Porquê esconder ao público informação tão importante, especialmente quando nos estão a dizer que a Coreia do Norte é alegadamente uma ameaça à paz?

Alguém se atreve a sugerir que esses meios de comunicação têm algum tipo de agenda escondida, que não querem que saibamos as verdadeiras razões por trás dos acontecimentos e das acções dos nossos líderes políticos? De que outra forma se explica que tais informações não apareçam na cobertura noticiosa sobre a Coreia do Norte?

Aqueles de nós que têm uma visão céptica dos acontecimentos da forma que nos são apresentados, não vão precisar de ser convencidos, mas e a grande maioria do público que não se apercebe que está a ser a mal informada e enganada?

Obviamente coexistem aqui duas realidades, uma apresentada pelos grandes meios de comunicação e a outra realidade é a do verdadeiro poder a ser exercido por verdadeiras razões, não sendo a economia a menos importante. Entretanto, a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, no fundo, qualquer país que trace um caminho que não bata certo com os objectivos da economia dos EUA, sentirá a força punitiva do seu poder, quer o líder seja um “jovem enérgico” ou um “populista demagogo” ou qualquer outro epíteto difamatório que sirva para a situação.

A sugestão de que os grandes meios de comunicação se portam deste modo é claramente ridicularizada como as loucuras dos “conspiracionistas” ou ainda pior, essa crítica seria, por si só, a expressão de uma agenda própria escondida. No entanto, de que outro modo se pode explicar a total ausência de referências às reais acções dos EUA na sua relação com a RDPC, que não pelo facto de que os grandes meios de comunicação têm uma agenda não-tão-escondida-assim para manter os factos cruciais afastados do público, especialmente se eles têm alguma importância no controlo das crises engendradas tais como a “ameaça nuclear” da Coreia do Norte. Não interessa expor as acções furtivas dos EUA quando o tom dos media são contínuas histórias sobre as “ambições nucleares” da RDPC e do seu perigoso líder.

E reparem como as “crises” vão e vêm, pelo menos na imprensa corporativa. Num dia o mundo está à beira de uma convulsão nuclear e no dia seguinte não se encontra nem uma palavra sobre as “ambições” nucleares da Coreia do Norte. Mas vistos na continuidade da cobertura das notícias, os acontecimentos consistem numa “crise” atrás da outra. Nunca, claro, por causa do Ocidente. São sempre uns asiáticos indecentes, uns árabes traiçoeiros, ou uns latinos de sangue quente, etc. De facto, é uma infinita liturgia de crises e ameaças ao “nosso” modo de vida, mas estas são sempre “ameaças” que existem num esplêndido isolamento da realidade.

“Nós” somos sempre vítimas de um conjunto de trapaceiros e de todo o tipo de loucos e psicopatas assanhados que aparecem e desaparecem de acordo com os critérios ditados pelas acções e objectivos dos nossos governantes. Mas sem a cumplicidade activa dos media corporativos, tais “ameaças” seriam impossíveis de vender. Assim, palavras aparentemente inócuas como as da Mary Dejevsky, que têm o propósito de ser nada mais do que os seus “pensamentos” sobre as suas ainda pouco desenvolvidas impressões sobre a “cirse do Suez” (“A minha geração cresceu na sombra do Suez”), assumem um papel mais ameaçador, pois reforçam a visão imperial do mundo, de um mundo de “nós contra eles”, onde “nós” somos as vítimas, mesmo se, como sugere Dejevsky, seja apenas um ataque fatal aos nossos idos egos imperiais.

Mas é assim que são dão os enganos, e o que torna tais “pensamentos” tão perigosos, é que mascaram a realidade subjacente dos interesses económicos e de poder (por exemplo, a posse do Canal do Suez, que apesar de atravessar o Egipto e correr em terras egípcias, foi “tomado” por Nasser, no universo atabalhoado da Dejevsky, onde a posse é um direito exclusivo daqueles com poder para o conseguir).

Desafiem esse poder e podem ter a certeza que irão ter o que merecem. Primeiro são diabolizados pelos meios de comunicação de referência, depois são isolados pela mítica “comunidade internacional” (termo jornalístico para os grandes poderes económicos dos EUA e da Europa), e segue-se uma dose pouco saudável de explosivos, só para o caso de não terem percebido a mensagem.

Notas

[1]. Para a história completa, ver ‘Why Bush is Seeking Confrontation With North Korea’, por GREGORY ELICH
[2]. idem
[3]. idem

 

Texto publicado por William Bowles no dia 30 de Outubro de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/1006/ini-0459.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:51

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Terça-feira, 26 de Setembro de 2006

Ilusão e Realidade

Por volta de 1990, quando eu estava a viver em Nova Iorque, eu, com mais duas ou três pessoas, fomos convidados para um serão na Missão Norte-Coreana nas Nações Unidas onde fomos agraciados com uma espantosa e deliciosa refeição de cozinha coreana, seguida da visualização de um vídeo interminável e aborrecido (a meu ver, de ocidental farto), que tentava apresentar a situação da Coreia do Norte.


Depois de terminado o vídeo, os nossos anfitriões, que eram anfitriões educados, modestos e maravilhosos, perguntaram-nos o que pensávamos sobre o vídeo, o que me colocou numa situação extremamente desconfortável porque, como peça de propaganda dirigida a uma audiência ocidental, era uma nódoa. No fundo, cenas intermináveis de enormes manifestações, fábricas, campos, amplas avenidas e citações de Kim il Sung, dificilmente iriam persuadir uma audiência americana, que cresceu com uma dieta de imagens lustrosas e sedutoras da superioridade do modo de vida ocidental, de que a Coreia do Norte era a melhor coisa que apareceu desde a invenção do pão fatiado.

Tentar explicar isto aos nossos anfitriões não foi fácil e, como era de esperar, não consegui, ou eles foram tão educados que não me disseram. O que isto revelou foi a imensa distância entre as nossas culturas. Os nossos anfitriões coreanos sabiam tanto do modo de vida americano como nós tínhamos do deles, independentemente da nossa simpatia por eles.

Era óbvio que eles estavam genuinamente orgulhosos das suas conquistas, que tinham sido conseguidas com muito custo, com a perda de 4 milhões de pessoas durante a Guerra Coreana e a destruição total do seu país pelas mãos “acção policial” liderada pelos EUA, como era eufemisticamente chamada.

A destruição norte-americana da Coreia é apenas um entre tantos crimes de guerra de cometidos pelo imperialismo, dos quais temos sido completamente mantidos na ignorância. Tivéssemos nós sido devidamente informados da horrenda escala de destruição, tanto humana como material, e penso que os acontecimentos poderiam ter terminado de forma diferente.

É normalmente aceite, pelo menos na Esquerda, que sem um esforço de propaganda em massa, persuadindo a maioria da população a apoiar as acções imperialistas, estas seriam, muito provavelmente, impossíveis. Se isto é verdade ou não, não é fácil de provar, pois não se tem em conta até que ponto fomos seduzidos pelos nossos próprios interesses em apoiar o projecto imperialista.

Mas se há uma coisa em que a Esquerda é boa, é por os pontos nos “ii” e o tracinho no “t”, simplesmente porque nós temos de fazer a nossa pesquisa de forma a tentar provar o nosso caso, já que a imprensa corporativa irá atacar o mínimo erro para nos deitar abaixo e provar que estamos enganados.

A História é, para nós, uma arma poderosa com a qual se investiga e explica o presente; como as coisas chegaram ao ponto em que estão. No entanto, isto não é algo fácil de conseguir. Requer um imenso tempo e esforço e depois tem de ser destilado em algo de fácil digestão.

Num artigo anterior, mencionei um livro, Strange Liberators [Estranhos Libertadores] de Gregory Elich, que é uma análise bastante detalhada da política externa dos EUA e especialmente sobre como as suas palavras vão completamente ao contrário das suas acções.

O livro é grande (400 páginas), por isso, em vez de fazer uma análise completa à obra, eu pensei que fazia mais sentido dividir em partes, a primeira das quais será sobre a Coreia do Norte.

Strange Liberators debruça-se durante três capítulos sobre a forma como os EUA lidaram com a desafortunada Coreia do Norte e ao fazer isso rebenta com o mito deste membro do chamado “eixo do mal”.

Independentemente do que vocês acham da versão do socialismo da Coreia do Norte, ou mesmo do seu historial em direitos humanos (dependendo do que se entende por direitos humanos), os registos são claros no que toca à forma como os EUA humilharam, ameaçaram e literalmente deixaram à fome, a população da Coreia do Norte, até capitularem às principais exigências norte-americanas.

O livro de Elich documenta este processo de forma minuciosa, repleto de páginas com referências. O problema para nós, claro está, é que não temos acesso aos meios de comunicação em massa de forma a podermos explicar a realidade da situação, nem é fácil reduzir, como faz a imprensa corporativa, acções ou intenções a frases com impacto que possam ser digeridas por populações alimentadas literalmente há gerações com uma dieta de papa política.

Então como é que se consegue transmitir a natureza de um estado predador e imperialista, a todos os que ainda não estão convertidos, sem cair no abuso da estatística nem em versões de frases chave da esquerda?

Elich consegue-o com uma boa dose de sarcasmo impregnado de ironia, e depois jorra os factos por cima, sendo uma boa fonte em que podemos confiar, por exemplo:

“Os EUA, guiados pela preocupação da paz e estabilidade na região, tentaram pacientemente encorajar uma relutante Coreia do Norte a negociar. Esta é a imagem popular, tão entranhada como inexacta.” (pág. 63)

Mas ter acesso aos factos é quase como uma escavação arqueológica em que poucos têm habilidade, compreensão ou paciência para a empreender. Felizmente, temos pessoas como Elich, que fazem a escavação por nós.

Os capítulos de Elich sobre a Coreia do Norte focam especificamente a alegada ameaça nuclear da Coreia do Norte aos Estados Unidos, uma acusação que seria risível se não fosse o facto de, usando a “ameaça nuclear” como pretexto, os Estados Unidos terem estado extremamente perto, em inúmeras ocasiões, de desencadearem uma guerra nuclear com a península coreana!

Esta simples realidade bastaria, tenho a certeza, para persuadir muitos mais milhões de pessoas sobre as reais intenções dos EUA, se fosse mais conhecida. Mas claro, os grandes meios de comunicação têm subtilmente escondido os factos ao público.

Em primeiro lugar, os EUA apanharam uma boa porrada durante a Guerra da Coreia e tal como a Guerra do Vietname, não ia ser perdoada nem esquecida, e desde aí, a mera existência da RDPC (República Democrática Popular da Coreia) é uma afronta ao capital norte-americano. Foram feitos todos os esforços, excepto a guerra, para apagar a RDPC da face do planeta.

Nos anos 1990, com uma mudança no governo da Coreia do Sul, foram dados passos em direcção a uma certa aproximação entre o Norte e o Sul, o que do ponto de vista dos EUA era algo definitivamente inaceitável.

Foram feitos todos os esforços para sabotar o restabelecimento de relações entre a Coreia do Norte e a do Sul, como se pode ver pelo retomar do jogo de guerra “Team Spirit” em 1993, suspenso por George H.W. Bush e reiniciado por Clinton (lá se vai a ideia daqueles que continuam a pensar que uma administração dos Democratas seria uma mudança para melhor!).

O “Team Spirit” envolvia bombistas, mísseis cruzeiro e forças navais, e só para chatear ainda mais os norte-coreanos, Clinton anunciou que alguns dos mísseis nucleares que tinham estado apontados para a antiga União Soviética, seriam redireccionados para a Coreia do Norte.

Previsivelmente, os norte-coreanos anunciaram que então iriam abandonar o Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNPAN), mas no seguimento de conversações com os EUA, a RDPC afirmou que continuaria como signatária.

Mas imediatamente, a AIEA (Agência Internacional de Energia Atómica) exigiu que a RDPC abrisse todas as instalações nucleares a inspecções, “algo que a agência nunca tinha exigido a nenhuma nação … um pedido que foi instigado por oficiais dos EUA … As relações aqueceram mais quando a Coreia do Norte descobriu que os inspectores da AIEA estava a passar informações secretas a oficiais norte-americanos.” (pág. 63)

A propaganda dos EUA reforçou-se com o aviso de Clinton de que “à Coreia do Norte, não se pode permitir que desenvolva a bomba nuclear.” (pág. 64). Não foi apresentada nenhuma prova para suportar esta alegação. Como toda a propaganda Goebleliana, foi aceite em virtude da contínua repetição pela administração Clinton e pelos seus papagaios dos grandes meios de comunicação.

Decorriam os preparativos para a guerra.

“Nós preparamos um plano detalhado para atacar as instalações [nucleares] de Yongbyon com bombas de precisão. Estávamos altamente confiantes que poderiam ser destruídas sem causar uma reacção nuclear que libertasse radioactividade para a atmosfera … anunciou o Secretário de Estado Adjunto da Defesa, Ashton Carter … Anos mais tarde, o governo sul-coreano efectuou uma simulação de um ataque a Yongbyon e conclui que se todos os edifícios do complexo fossem atingidos, um quarto da população, num raio de 50km, morreria num espaço de horas.” (pág. 64)

Algo pior estava a ser preparado. O pensamento no Pentágono era, “já que estamos nisto, porque não apanhá-los a todos?” (pág. 65). Felizmente, o presidente da Coreia do Sul, Kim Young-Sam, não foi na conversa dos loucos dos EUA.

“Kim avisou o Embaixador norte-americano James Laney que outra guerra transformaria toda a Coreia num banho de sangue.” (págs. 64-65)

No seguimento de um conversa telefónica de 32 minutos, entre Clinton e Sam, os EUA concordaram relutantemente em não “conquistar” a Coreia do Norte. Mas nos doze anos seguintes, os EUA levaram a cabo uma guerra com a Coreia do Norte, por outros meios, incluindo esfomear a população até à submissão, o que levou directa ou indirectamente, à morte de talvez um milhão de pessoas, muitas delas crianças.

Até aos dias de hoje, seguiram-se outras ameaças de ataques militares, incluindo o uso de armas nucleares, ameaças que Elich assinala na sua total realidade horrorosa e de sangue frio.

Por esta altura, já deve ser óbvio que o Iraque, e agora o Irão, são meramente a continuação da política que os EUA têm vindo a fazer nos últimos cinquenta anos; “Se não fizeres como eu digo, rebentamos contigo. Vamos esfomear-te e isolar-te, e forçar os nossos aliados a apoiarem-nos.”

É preciso que perguntem a vocês próprios que possíveis razões farão de um país pequeno, atacado pela pobreza, que nunca atacou ninguém, uma ameaça tão grande aos EUA e que justifique assassinatos, mentiras, subterfúgios e sabotagem.

Os EUA e o seu grande parceiro, o Reino Unido, com a cumplicidade dos media corporativos detidos pelo estado fizeram com que se acreditasse que a Coreia do Norte, se por acaso tivesse os meios (que obviamente não tem), arriscaria a destruição total, invadindo os Estados Unidos da América. Que ideia ridícula!

A resposta, como acertadamente assinala Elich, é simples: lucro. E aqui, Elich vai de certa forma contra a ortodoxia prevalecente, afirmando categoricamente que a invasão do Iraque e do Afeganistão, longe de serem falhanços, são um estrondoso sucesso, quando medidas em dólares.

“Os líderes ocidentais podem enganar-se na facilidade com que serão capazes de impor a sua vontade no Iraque e tomar o controlo da sua economia, mas não há nada de irracional na decisão de ir para a guerra. As baixas têm sido suportadas quase só pelos cidadãos vulgares do Iraque e pelos soldados ocupantes que se ferem e morrem. As despesas são pagas através dos impostos, saídos principalmente dos bolsos dos trabalhadores, enquanto o sector das corporações é que recolhe os ganhos. Os ganhos têm sido reais para essa classe. O facto de muitos dos objectivos da administração Bush não terem sido cumpridos, não exclui o facto de alguns terem sido alcançados. Mesmo ganhos parciais são valorizados, quando o custo é suportado por outros. Que o Iraque, virado do avesso pela guerra, seja um lugar perigoso e agonizante, não preocupa os donos das corporações que nunca lá põem os pés e para quem o Iraque representa um investimento lucrativo.” (pág. 22)

É a mesma lógica fria, que impulsionou a política norte-americana relativa à Coreia do Norte, durante mais de cinquenta anos. Dito de forma simples, desafiem o capitalismo dos EUA e serão destruídos.

 

Strange Liberators – Militarism, Mayhem and the Pursuit of Profit [Estranhos Libertadores – Militarismo, Desordem e a Busca do Lucro] de Gregory Elich. Llumina Press, 2006. (amazon.co.uk, amazon.com)

 

 

Texto publicado por William Bowles em http://williambowles.info/ini/2006/0906/ini-0451.html a 23 de Setembro de 2006, e traduzido por Alexandre Leite.

 

publicado por Alexandre Leite às 20:55

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Domingo, 13 de Agosto de 2006

Huff-Huff! Quando morde é muito pior do que quando ladra!

Estratégias imperiais dos EUA e o chamado lóbi Judeu

 
Considerem, se assim entenderem, que os EUA, nos últimos 100 anos, têm seguido uma política que lhes permite assegurar o domínio global através da propriedade e controlo de fontes vitais de energia, e como resultado, têm dominado a economia mundial em benefício da sua própria classe capitalista. Esta política provocou inúmeras guerras e golpes de estado e mesmo, a deliberada destruição de países inteiros, através do controlo do comércio mundial e de inúmeros governos estrangeiros.

Para atingir estes objectivos, utiliza uma série de tácticas, tácticas estas que incluem assassinatos, subversão, subornos e chantagem, derrube de governos, arranjos eleitorais e ainda, as óbvias campanhas de propaganda, levadas a cabo pela imprensa corporativa, cujos interesses são, sem dúvida, idênticos aos dos que os governam. A mão cheia de corporações de comunicação/media que fazem esta guerra de palavras têm uma actividade global, permitindo passar a mesma mensagem independentemente da língua ou da localização.

Este processo é acelerado e intensificado como resultado de fusões e aquisições e pela convergência dos processos tecnológicos envolvidos. Deste modo, as corporações que detêm os meios de comunicação são as mesmas que fabricam armas e desenvolvem sistemas de vigilância e controlo social. Por outro lado, estas corporações são propriedade, por via de acções na Bolsa, de uma mão cheia de corporações globais de bancos, investimentos e seguradoras.

Liderando a alcateia estão talvez quatro ou cinco corporações gigantes da energia, onde se incluem a Exxon e a Shell, corporações que através de co-propriedade, de direcções partilhadas, estão também ligadas a grupos de corporações de armamento, como a Lockheed, Grumman, Martin-Marietta, Raytheon.

Para assegurar que esta pouco santa aliança mantenha o seu domínio e controlo, os indivíduos que fazem parte das administrações desta mão cheia de corporações, são os mesmos que ocupam posições chave em governos. De facto, é virtualmente impossível separar os dois, e tem sido assim no último século, qualquer que seja o partido político no poder. Literalmente, há uma porta aberta entre o governo e os negócios, uma relação que se estende a governos estrangeiros, como o Reino Unido e Israel.

Não é desmedido falar numa emergente classe capitalista global, mas uma liderada pelos EUA, cujos interesses transcendem os da nação-estado, apesar desta relação não ser suave nem completa, se repararmos nos interesses competitivos das potências capitalistas rivais, como a França, a Alemanha ou o Japão. Para alem disso, as tensões entre interesses nacionais e corporativos manifestam-se de forma complexa e muitas vezes contraditória. Por isso, vemos ocasionais “desacordos”, como o que houve entre a França e os EUA sobre a invasão do Iraque e mais uma vez, sobre a invasão do Líbano.

Mas acima de tudo, o espantoso poder militar e económico dos EUA garante que de uma forma ou de outra, geralmente consegue o que quer, e fá-lo através do controlo de reservas vitais de energia, e está relacionado com o controlo do circuito global de capitais, facilitado pelo dólar Norte-Americano. Afundado o barco Norte-Americano, podem ter a certeza que outros se irão afundar também, estando assim os interesses nacionais circunscritos pela realidade da necessidade de sobrevivência.

As evidências disto são esmagadoras, estando documentadas por dúzias, se não centenas de escritores e investigadores há anos, alguns dos quais têm sido citados aqui vezes sem conta. Em última análise, aqueles que se opõem a esta interpretação dos acontecimentos, ou são pessoas que ignoram os factos ou acreditam que os interesses destas corporações gangsters e os seus próprios, são idênticos, mesmo que isso implique a sua própria destruição (mas mais provavelmente a de outras pessoas).

O que me leva à questão a que eu chamo de, a hipótese da “cauda a abanar o cão”, que persiste apesar de todas as evidências em contrário. Evidências que me pediram para apresentar. Podem perguntar qual a importância do assunto para estar a voltar a ele.

Em primeiro lugar, o meu interesse não é, como dizem alguns na “esquerda”, o alegado perigo de um aumento de um anti-semitismo, como resultado das acções de Israel. Porque é que estes mesmos indivíduos não se preocupam com o papel do racismo aplicado aos nossos irmãos e irmãs de pele escura, já que se preocupam tanto com as políticas imperialistas? O uso do racismo pelos poderes imperialistas, para dividir e conquistar, e para justificar todos os massacres, é infinitamente mais importante que o alegado perigo de um aumento do anti-semitismo. Se há um aumento do anti-semitismo, é melhor resolverem a questão da existência de Israel como um estado religioso, extremista e fundamentalista, que é afinal, a causa.

Mas de muito maior importância, é o facto de, ao avançar a hipótese de uma “cabala” de Judeus controlarem a nação mais poderosa do planeta, se encobrem as verdadeiras questões. Sem dúvida que alguns dos principais capitalistas e os seus representantes no governo dos EUA se intitulam Judeus e mostram-se publicamente como aliados do estado de Israel. Afinal, os seus interesses coincidem. Mas do mesmo modo, muitos se intitulam Cristãos e, aplicando a mesma lógica, poderíamos argumentar que existe uma “cabala” de Presbiterianos (ou Anglicanos, ou Evangélicos ou Adventistas do Sétimo Dia...) a controlar a América.

Tão importante, é reconhecer o facto de que o estado Sionista de Israel é feito de colonos Europeus brancos ou seus descendentes, que têm uma visão idêntica aos seus correspondentes dos EUA e da Europa (procurem em vão por um Judeu de pele escura, Marroquino/Africano, no governo de Israel). Professarem os ensinamentos do Antigo Testamento, nem acontece cá, nem lá. Intitularem-se “O Povo Escolhido” não é diferente dos colonialistas Europeus que reclamaram o “direito” de colonizar, em virtude de serem Cristãos e “civilizados”, em oposição aos “pagãos” que escravizaram, e cujas terras e recursos roubaram. Em ambos os casos, religião e “raça”, foram usados para justificar a opressão e expropriação, com base num inventado “direito”, o de “raça” e o de religião.

Qual apareceu primeiro, o “lóbi Judeu” ou o imperialismo dos EUA? De facto, para começar, o conceito de “Terra-Mãe Judia” foi uma invenção do colonialismo Britânico. Foi criado inicialmente para assegurar a continuidade do controlo da linha vital de abastecimento das possessões coloniais britânicas na Índia e no Leste. Depois da descoberta do petróleo também foi um meio de suprimir a crescente onda de nacionalismo Árabe. O ponto fulcral desse controlo era a Palestina, que em virtude de nada mais que a sua localização geográfica, perto do Canal do Suez, foi seleccionada como a “Terra-Mãe”, pelo Lord Balfour, em 1917.

Podem ter a certeza que se os interesses do estado de Israel e os do imperialismo dos EUA divergirem (como aconteceu, por exemplo, quando a Grã-Bretanha e Israel invadiram o Egipto, em 1956, ou mais recentemente, quando Israel tentou vender armas à China), então a verdadeira relação entre os dois é revelada, a de um amo e o seu servo.

Claro que haverá alguns a argumentar que é o “lóbi Judeu” que está, de alguma forma, a forçar os EUA a financiar o estado colonial, mas eu penso que o financiamento dos EUA a Israel não é diferente do que pratica noutros estados servis, do Paquistão à Arábia Saudita. Faz isso sem interesses nacionalistas/corporativos, pois se transpirasse a ideia de que a política de Israel ia divergir, com prejuízo dos interesses dos EUA, então seguramente, tal como a noite se segue ao dia, Israel deixaria de ser o menino bonito da América corporativa, quaisquer que fossem os queixumes do “lóbi Judeu”.

Basta verem como os EUA trataram outros “aliados” que, deixando de ser úteis, foram descartados, desde Manuel Noriega no Panamá, Saddam Hussein no Iraque ou Jonas Savimbi em Angola.

O facto de Israel ser de longe o maior beneficiário da ajuda dos EUA, apenas sublinha a importância de Israel/Palestina no planeamento estratégico Norte-Americano, tal como acontecia quando a Grã-Bretanha era o líder da “alcateia” no Médio Oriente. Não deve surpreender que, tal como em 1917, o petróleo foi o ponto principal da estratégia Britânica, também hoje ainda é o petróleo, que é a razão porque Israel tem um papel tão importante no planeamento dos EUA.

Num comentário aqui, Lance Thruster pergunta-me:

“Se estou a perceber bem, Israel serve a agenda dos EUA e não é ao contrário. Se fosse esse o caso, porque é que lóbi de Israel teria tanto sucesso na punição de políticos dos EUA que não são suficientemente pro-Sionistas?”

Não tenho a certeza sobre o que quer dizer com punição, mas a classe política dos EUA não é completamente homogénea. Alguns, por exemplo Zbigniew Brzezinski, um arqui-imperialsita, argumentam que prosseguir a com a actual política NÃO defende os interesses a longo prazo, do capitalismo dos EUA. Assim, lemos:

“Estas receitas neo-conservadoras, das quais Israel tens as suas equivalentes, são fatais para a América e no final, para Israel. Elas vão virar totalmente, uma esmagadora maioria da população do Médio Oriente, contra os EUA. As lições do Iraque falam por si próprias. Eventualmente, se a políticas neo-conservadoras continuarem a ser levadas a cabo, os EUA serão expulsos da região e isso será o fim de Israel também.” - Zbigniew Brzezinski

E há outros que também vêm os perigos inerentes às actuais políticas da administração dos EUA. Infelizmente, são uma minoria. Se existir uma “cabala” a controlar a actual política externa dos EUA, será uma liderada pelo Grande Petróleo, cujos interesses parecem ultrapassar os interesses nacionais. Eu digo parecem porque o resultado da actual crise irá determinar o futuro do capitalismo Norte-Americano, e julgo que o que está a ser jogado aqui, é uma gigantesca aposta de Israel, comandado pelos EUA, na instalação de um regime subserviente no Líbano, consolidando assim o controlo Norte-Americano dos seus importantes interesses no petróleo da região. Se falharem, então, tal como diz Brzezinsk, isso ditará o fim do existente estado de Israel e dos planos dos EUA para a região.

E é óbvio que um sucesso dos EUA é também um sucesso de Israel, mas não necessariamente ao contrário. Os EUA não despejaram milhares de milhões de dólares em Israel, apenas por alguns religiosos fundamentalistas dementes nem por causa de um desejo de combater o anti-semitismo. Não se esqueçam que não foi assim há tanto tempo que os Judeus eram discriminados nos EUA, não à escala da discriminação dos negros Americanos, mas eram barrados nalguns clubes, escolas e outros locais, e o anti-semitismo ainda existe nos EUA como existe por outros lados.

Não nos esqueçamos que o financiamento de Israel pelos EUA é já vem de há décadas antes desta administração. Os que argumentam que a “cauda abana o cão” estão a dizer que desde o seu estabelecimento, o estado de Israel foi lançado e apoiado por um lóbi, o que obviamente não faz sentido.

Não apenas não faz sentido, como é um perigoso absurdo, pois serve apenas aqueles que procuram obscurecer as verdadeiras questões, ao levantar a questão da “raça” em oposição aos interesses de classe, tal como a máquina de propaganda de Israel/EUA tenta fazer crer que é a sobrevivência do estado Judeu que está em causa aqui.

Em última análise, o que estamos a assistir aqui não são os pequenos interesses sectários desta ou daquela “cabala” a serem jogados, mas sim o futuro do capitalismo dos EUA na forma que está actualmente constituído, e é por isso que eu argumento contra os “Huff-Huff” deste mundo.

 

Texto publicado por William Bowles em http://williambowles.info/ini/2006/0806/ini-0444.html  a 8/8/2006 e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 16:41

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