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Quinta-feira, 30 de Novembro de 2006

Guerra e Paz - e Pobreza

Pobreza Infantil e o Orçamento da "Defesa"

Foi o jornal Daily Telegraph, e não o “liberal” Independent ou o Guardian, que publicou acusações, na semana passada, de que Tony Blair está “a gastar perto de 7 mil milhões de libras [cerca de 10,37 mil milhões de euros] do dinheiro dos contribuintes numa insatisfatória guerra ao terrorismo”. (Toby Helm e Brendan Carlin, 'Anger at £7bn cost of war on terror,' Daily Telegraph, 20 de Novembro de 2006)

Sem surpresa, o Telegraph, relatava a partir do próprio esquema de propaganda do governo sobre a “guerra ao terrorismo”. Mas a cobertura noticiosa foi bem vinda, dado ter revelado o imenso custo financeiro público da invasão e ocupação do Iraque e do Afeganistão, que tem sido silenciado.

A notícia adiantava que Blair e o seu cúmplice “Tweedledum/Tweedledee”, Gordon Brown, tinham orgulhosamente “proclamado um financiamento especial” dos contribuintes britânicos para o Iraque, Afeganistão e Paquistão: totalizando 844 milhões de libras [1,25 mil milhões de euros]. Este anúncio de financiamento aconteceu apenas dois dias depois de Blair ter admitido, numa entrevista à Al-Jazeera, que a invasão do Iraque em 2003 tinha sido um “desastre”. Perturbados oficiais do governo têm desde essa entrevista tentado voltar atrás freneticamente, considerando que foi um “lapso” do Primeiro-Ministro.

No dia seguinte à notícia do Telegraph, a Press Association (PA)[agência de notícias britânica] informou que o “financiamento especial” fazia parte de um enorme aumento no limite de gastos do Ministério da Defesa: até 1,6 mil milhões de libras [perto de 2,38 mil milhões de euros] para o próximo ano financeiro. O Secretário de Estado da Defesa, Des Browne, deixou escapar sorrateiramente numa declaração escrita: o já enorme orçamento do Reino Unido para a “defesa” seria aumentado de 32 mil milhões de libras [47,37 mil milhões de euros] para 33,6 mil milhões de libras [49,74 mil milhões de euros, aproximadamente] em 2006-07. (Ben Padley, 'MoD seeks extra £1.4bn for Iraq and Afghanistan,' PA, 21 de Novembro de 2006)

Vários dias depois, as bases de dados dos meios de comunicação não mostravam nenhuma referência ou seguimento desta notícia da PA. A única excepção é um artigo de opinião de George Moninbot no Guardian de hoje [28 Novembro]. Ele assinala o grande aumento no orçamento militar:

“Ninguém reparou, Ou se o fizeram, ninguém se queixou. O governo nem se deu ao trabalho de emitir uma declaração à imprensa.” (Monbiot, 'Only paranoia can justify the world's second biggest military budget,' The Guardian, 28 de Novembro de 2006)

Para além disso, como explica o investigador Chris Langley, mesmo o citado limite de gastos do ano anterior de 32 mil milhões de libras [47,37 mil milhões de euros] é “enganoso” (Langley, comunicação por ele feita, 27 de Novembro de 2006). Os reais gastos, incluindo depreciação e custo de amortizações, foram de 39,8 mil milhões de libras, de acordo com os dados produzidos pela Agência de Estatística da Defesa. (http://www.dasa.mod.uk/natstats/ukds/2006/c1/table11.html)

 

Andando Acima dos Seus Limites – Pisando os Pobres

Em termos de dinheiro, como apontou Monibot, o orçamento militar da Reino Unido é o segundo mais alto do mundo (depois dos EUA). Mas na realidade, como muitas vezes nos recordam os políticos e os media, o nosso país gosta de “voar alto” nos assuntos globais. A “Defesa” é o quarto maior consumidor de dinheiro dos contribuintes do Reino Unido, depois da segurança social, saúde, e educação. (Chris Langley, 'Soldiers in the Laboratory,' report, 79pp., Scientists for Global Responsibility, Janeiro de 2005; www.sgr.org.uk/ArmsControl/MilitaryInfluence.html)

Os grandes meios de comunicação raramente questionam porque é que uma tão grande porção do orçamento vai para o sector militar. É difícil encontrar uma discussão sobre o impacto que estas finanças distorcidas podem ter no apoio estatal aos serviços públicos de saúde, educação e justiça social em geral. Em particular, não há nenhum debate que faça a ligação entre o grande orçamento militar do Reino Unido e as consequências para a erradicação da pobreza infantil – um escândalo que está a acontecer. Hilary Fisher, directora da associação End Child Poverty [Acabar com a Pobreza Infantil], assinala:

“Num país tão rico como a Grã-Bretanha é embaraçoso e chocante que ainda haja crianças a viver na pobreza.” (www.ecpc.org.uk/index.php?id=4)

A associação cita algumas tristes realidades da pobreza infantil no Reino Unido:

400 000 crianças têm uma dieta inadequada.

Perto de 52 000 famílias com crianças, ficaram sem casa em 2005.

Os custos crescentes do gás e da electricidade implicam que seja esperado que três milhões de famílias fiquem incapazes de aquecer as suas casas neste ano.

Crianças de famílias de trabalhadores indiferenciados têm 15 vezes maior probabilidade de morrer num incêndio doméstico.

Como diz um pai de três crianças no Norte de Londres:

“O pior de tudo é desprezo dos nossos caros concidadãos. Eu e muitas famílias vivemos num total desprezo.” ('Making UK poverty history,' Oxfam GB, BOND, End Child Poverty Coalition and the TUC, Outubro de 2005, report, 20pp., www.oxfmagb.org)

Em Outubro, a associação End Child Poverty [Acabar com a Pobreza Infantil] pediu a Gordon Brown para disponibilizar uns meros 4 mil milhões de libras [5,9 mil milhões de euros] para acabar com a pobreza infantil na Grã-Bretanha. Esta associação avisou: “É claro que as políticas e os recursos actuais não irão permitir ao governo atingir os seus objectivos.”

Mas é preciso espreitarmos num jornal de pouca tiragem, o Morning Star, para juntar um mais um e concluir o óbvio. Um recente editorial diz que, em Março de 1999, Tony Blair prometeu erradicar a pobreza infantil “numa geração”, apontando o objectivo para 2020. (Editorial, 'Sick set of priorities,' Morning Star, 20 de Novembro de 2006).

Em Março de 2006, o governo viu-se forçado a anunciar que tinha falhado – por uma margem significativa – em atingir o primeiro objectivo desse projecto. Tinha propagandeado que iam reduzir o número de crianças a viver na pobreza em 25% - aproximadamente um milhão – e falharam por 300 000.

O editor do Morning Star escreveu:

“Há 3,4 milhões de crianças britânicas ainda a viver na pobreza por causa desse falhanço, perto de um quarto da população com idade inferior a 16 anos, num país que se vangloria de ser a quinta maior economia do mundo.”

O editorial assinalava o escândalo do pedido de Blair, no mesmo mês em que foram publicadas estas estatísticas da pobreza, de uma renovação da “dissuasão” nuclear britânica. Ou, como diz o jornal de forma sagaz, uma substituição “do irrelevante, ineficaz, e ainda não usado, sistema de mísseis Trident, com um custo estimado em cerca de 25 mil milhões de libras [perto de 40 mil milhões de euros]”.

E mesmo o desconcertante número de 25 mil milhões é apenas uma estimativa por baixo, do custo final para o público. Uma reportagem do Guardian, baseada em cálculos dos Liberais Democratas, estima um número muito mais alto de 76 mil milhões de euros [112,4 mil milhões de euros]. Esta seria a arca do tesouro necessária para comprar mísseis, substituir quatro submarinos nucleares, e manter o sistema durante o seu prazo de validade de 30 anos. (John Vidal, Tania Branigan and James Randerson, 'Global warming: Could scrapping these... ...save this?', The Guardian, 4 de Novembro de 2006)

O Dr. Stuart Parkinson, Director Executivo dos Cientistas pela Responsabilidade Global, enviou-nos a sua resposta aos planos do governo de substituir o Trident:

“É extremamente perturbador que o governo pareça disposto a tomar a decisão de patrocinar um novo sistema de armas nucleares – cujo custo total pode ser tão alto como 76 mil milhões de euros [112,4 mil milhões de euros] – enquanto a pobreza infantil ainda existe no Reino Unido.” (por correio electrónico, 28 de Novembro de 2006)

 

A Caravana Polly Cameroniana

Infelizmente, a mesma rectidão no desafio às prioridades estabelecidas esteve ausente no artigo sobre a pobreza da colunista Polly Toynbee, do jornal Guardian, na semana passada. (Toynbee, 'If Cameron can climb on my caravan, anything is possible,' The Guardian, 22 de Novembro de 2006). Durante muitos anos, Tonybee construiu uma reputação, no público em geral, de social democrata campeão da causa da redução da pobreza.

“Para os Conservadores admitirem que ignorar alguma pobreza foi um terrível erro, represente um grande avanço,” declarou no seu artículo.

E – outra pérola de Toynbee – o líder Conservador, David Cameron, “facilita aos Trabalhistas serem arrojados sobre a pobreza, atingir esse objectivo de abolir a pobreza infantil em 2020”.

Esta foi uma análise trivial. Toynbee deu, deste modo, crédito ao líder conservador David Cameron pela sua tentativa falhada de abafar o assunto da pobreza. Não houve nenhuma menção às políticas corporativas apoiadas por este partido, e seguidas pelo estado, qualquer que seja o partido no poder, em prejuízo da justiça social – incluindo quaisquer esperanças realistas de abolir a pobreza infantil. Como escreveu o historiador radical Mark Curtis:

“Almejar a erradicação da pobreza sem mexer nos grandes negócios é quase como abordar a malária sem falar dos mosquitos.” (Curtis, 'Web of Deceit,' Vintage, 2003, p.217)

Escrevemos o seguinte a Toynbee:

“Não há nenhuma menção no seu artigo às distorcidas prioridades dos gastos governamentais, como o seu inchado orçamento da “defesa”; e, especificamente, se o estado deve pagar milhares de milhões pela invasão-ocupação do Iraque.

Ou, olhando para a coluna de Richard Norton-Taylor's que está imediatamente à direita da sua ['Beware Trident-Lite'], se pagar uma grande soma pela actualização da nossa “dissuasão” nuclear é ou não um uso responsável dos dinheiros públicos.

Porque é que não considerou relevantes estes aspectos no seu artigo sobre a pobreza actual?” (Por correio electrónico, 22 de Novembro de 2006)

Em resposta, recebemos uma interessante variação da velha história da “falta de espaço”:

“Bem, não podemos meter tudo numa coluna! Ou teríamos sempre a mesma…” (Por correio electrónico, 23 de Novembro de 2006)

Uma resposta como esta faria sentido se Toynbee tivesse examinado repetidamente a ligação entre os exorbitante gastos militares – a substituição do Trident, em particular – e a falta de progressos na erradicação da pobreza infantil. Mas, nos últimos dose meses, ela apenas aflorou duas vezes uma possível ligação. É uma performance baixinha para alguém que tem os louros, nos grandes meios de comunicação, de estar empenhada na exposição da pobreza e da justiça social. E, desta forma, as suas respostas entram no campo das evasivas liberais.

Também escrevemos a Andrew Grice, editor de política do jornal Independent, por causa da sua coluna sobre o mesmo tópico. ('The week in politics: Beckham, Toynbee and the Tory view of poverty,' The Independent, 24 de Novembro de 2006):

“Você refere ‘as causas principais da pobreza profunda, tais como os problemas com o álcool e drogas, e uma pobre educação e condições da habitação’. Porque é que não há nenhuma menção, no seu artigo, às prioridades distorcidas do estado no gasto do dinheiro dos contribuintes; em particular, as grandes somas gastas na ‘defesa’?

Como deve saber, Tony Blair, na semana passada, enfrentou acusações de que ‘estava a gastar perto de 7 mil milhões de libras [10,37 mil milhões de euros] dos contribuintes numa insatisfatória guerra ao terrorismo.’

Para além disso, o Secretário de Estado da Defesa, Des Browne, acabou de anunciar um aumento no orçamento militar anual do Reino Unido, passando de 32 mil milhões de libras [47,37 mil milhões de euros] para 33,6 mil milhões de libras [49,74 mil milhões de euros] para 2006-07.

E ainda há a proposta de substituição do Tridente, a um custo de 25 mil milhões de libras [perto de 40 mil milhões de euros] ou mais. De facto, cálculos feitos para a compra de novos mísseis, substituição de quatro submarinos nucleares, e manutenção do sistema durante 30 anos, sugerem uma soma total a rondar os 76 mil milhões de libras [112,4 mil milhões de euros].

Porque é que considerou irrelevante, tudo isto, na sua coluna de opinião desta semana?” (Por correio electrónico, 24 de Novembro de 2006).

Na altura em que estamos a escrever ainda não obtivemos resposta.

 

Comentário Final

Os repórteres e comentadores corporativos aperfeiçoaram a arte de não fazer ligações dolorosas; isto é, dolorosas para os interesses poderosos. Assim, a vergonhosa pobreza infantil e o enorme orçamento militar estão em compartimentos diferentes do pensamento geral. É uma tristeza isto acontecer a alguém que devia olhar para um, e depois para o outro, e pensar em voz alta se a política estatal é, de facto, louca.

É como se o estado estivesse focado em *excluir* a racionalidade; de facto, excluir a compaixão.

Chogyam Trungpa disse uma vez que “a compaixão é a máxima atitude da riqueza: um atitude anti-pobreza, um guerra à ganância. Contém todos os tipos de qualidades heróicas expansivas, sumarentas, positivas, visionárias”. (Trungpa, 'Cutting through spiritual materialism', Shambhala, 2002, p. 99)

 

 Na raiz, temos de questionar se o estado pode, de forma significativa, agir com racionalidade e compaixão. E, se não, o que vamos fazer em relação a isso.

 

Texto publicado a 28 de Novembro de 2006, em http://www.medialens.org/alerts/index.php e traduzido por Alexandre Leite.

 

publicado por Alexandre Leite às 18:03

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Quinta-feira, 9 de Novembro de 2006

A guerra da comunicação em Oaxaca

O Governador Ulises Ruiz Ortiz Perdeu a Guerra dos Media

(Relato a partir de Oaxaca)

O governador de Oaxaca, Ulises Ruiz Ortiz (URO) e os seus amigalhaços do PRI estão a trabalhar para evitar que a informação correcta chegue ao público. E a “Narco News” está a fazer o melhor que pode para que toda a informação seja conhecida pelos seus leitores em todo o mundo. Já não estamos no tempo em que URO podia dizer “No pasa nada”, não se passa nada. Agora ele diz, “há apenas uma pequena área bloqueada”. Diz também, “este é um grupo minoritário”, ignorando os relatos diários de confrontos e bloqueios em todas as regiões do estado.

 

De facto, a emissora controlada pelas forças do PRI oposicionistas ao movimento da assembleia popular (ironicamente, é uma estação pirata, sem licença), mencionou o nome “Narco News”. O formato de programa com chamadas telefónicas, uma imitação do formato da Rádio Universidade apoiante do movimento, encoraja as pessoas – “cidadãos” – a ligarem com as suas denúncias e comentários. Um desses programas foi dominado por uma pessoa que se queixava da “Narco News” estar a… relatar as notícias. Os mesmos cidadãos ligam diariamente com queixas sobre como a Assembleia Popular do Povo de Oaxaca (APPO) está a bloquear o trânsito e a incomodá-los de diversas formas, incluindo o cancelamento de meses de escola e impedindo a recolha de lixo.

 

A batalha a decorrer na televisão e na rádio incluiu a tomada de estações de rádio pelo movimento da assembleia popular, a criação de barricadas, a perda de estações de estudantes e de professores, várias recapturas, a tomada e subsequente perda da única estação televisiva de Oaxaca, o Canal 9, por um grupo de mulheres “cacerolas” da APPO – uma saga nos meios de comunicação que ainda continua actualmente.

 

         Neste momento uma rádio apoia a APPO, a Rádio Universidade, continua no ar – ou antes, voltou a estar no ar, depois de ter sido atacada a 22 de Julho por bandidos contratados pelo governador. De volta ao ar, no entanto, enfrentou duas tentativas de silenciamento. Uma delas foi um ataque directo, pela Polícia Federal Preventiva a 4 de Novembro, acontecimento agora conhecido como a Batalha de Oaxaca, quando a população apareceu a defender a universidade autónoma, numa luta de sete horas contra gás lacrimogéneo, água química e polícia armada. A população, com as suas armas de pedra e bravura física, repeliu-os.

 

O silenciamento da rádio não foi conseguido pela força: nem a invasão das instalações da universidade nem os disparos contra a antena em Fortin Hill. Isso funcionou uma vez para calar a estação, mas de alguma maneira os estudantes conseguiram reconstruí-la. Outro ataque aconteceu a 4 de Novembro. Este recente ataque conseguiu algum dano, actualmente a ser reparado por técnicos, como foi feito anteriormente. No entanto, o alcance da transmissão foi prejudicado; já não chega a toda a cidade.

 

Quando a invasão da universidade falhou, os apoiantes do PRI lançaram mais uma campanha de interferência estática no degradado sinal da rádio. Esse tipo de ruído foi anteriormente usado contra as outras estações de rádio, quando estavam nas mãos da APPO. Agora está a ser usado contra a Rádio Universidade. O movimento depende da rádio para pedidos de ajuda (como aconteceu quando a universidade estava a ser atacada), para chamamentos às barricadas, para anunciar manifestações, encontros e marchas – resumindo, para as comunicações necessárias para continuar a luta. Mais uma vez, na segunda-feira, soou o alarme.

 

O apoio, no entanto, é que a “Noticias La Voz de Oaxaca” também emite notícias numa estação de rádio comercial apoiante, todas as tardes.

 

URO, há cinco meses, perdeu de vez a guerra dos jornais iniciada pelo seu antecessor, José Murat, que tentou rudemente esmagar o “Noticias” num conflito que originalmente tinha mais a ver com hostilidades privadas entre homens endinheirados do que com interesses políticos. Murat desferiu uma série de ataques, tais como uma falsa greve de trabalhadores que nem trabalhavam no “Noticias” e um assalto ao armazém do jornal. Depois URO, que sucedeu a Murat, tomou conta com disparos contra o novo escritório do jornal – o antigo ainda está ocupado pelos “grevistas”, uma situação que já se arrasta há um par de anos sem nenhuma resolução legal, porque não é do interesse de URO permitir uma solução. Também se diz que ele tentou um segundo ataque ao armazém do jornal.

 

         Tornar um editor de jornal, num inimigo, não é a coisa mais inteligente a fazer, e claro, o “Noticias”, que não era especialmente inclinado a apoiar movimentos sociais, está agora um grande amigo da Assembleia Popular do Povo de Oaxaca. Relata constantemente informações correctas – o que é uma desvantagem para URO.

 

         Para além disso, o “Noticias” está a vender jornais, pois milhares de professores pretendem ler o que se diz sobre eles e ver as fotos das suas acções. URO fez um grande favor financeiro ao seu inimigo noticioso.

 

         Logo a seguir ao acampamento de professores de 14 de Junho, nascia um novo jornal: Toucan, que se baseia em foto-jornalismo, com impressionantes fotografias do ataque, do contra-ataque, das dúzias de marchas e dos vários assassinatos, incluindo o de Bradley Will. Cada foto é uma homenagem ao movimento da assembleia popular.

 

         Melhor ainda, o “La Jornada”, prestigiado jornal populista da Cidade do México, cobre constantemente, recorrendo a boletins electrónicos que são publicados na sua página da internet durante a noite. As notícias, não totalmente imparciais, são factualmente correctas, ao contrário das dos grandes jornais quer do México quer dos Estados Unidos, que apresentam relatos enganosos e falsos, tais como os feitos pela Associated Press.

 

         Para além disso, brigadas de fotografia e vídeo, de jornalistas estrangeiros e nacionais, chegaram em força. Tudo é mostrado, deixando o PRI e o URO sem lugar onde se esconderem. As pessoas locais do movimento também andam com câmaras e quando há ameaça de um ataque, a Rádio Universidade lança um apelo para que as pessoas acorram com câmaras, para documentar o que se está a passar – como fizeram no ataque de 14 de Junho, no zócalo [centro da cidade]. Cada sobrevoo de helicóptero aparece nas fotografias. A capacidade de URO para mentir sobre quem tinha as armas e quem disparou contra quem, foi destruída. Cada vídeo e cada fotografia, para além disso, aparecem na internet, nas notícias internacionais, nas notícias nacionais, nas notícias locais, até às ruas, onde esses vídeos são passados em ecrãs postos em cima de caixas, nos passeios, para que os transeuntes os possam ver.

 

         Na segunda-feira, o dia a seguir à Sexta Megamarcha, os vídeos estavam a ser mostrados na “Andador Turística”, outrora uma zona comercial com lojas caras, que vai desde a igreja de Santo Domingo até ao zócalo. Os vídeos do movimento são actualizados a cada marcha e a cada batalha, mas o favorito continua a ser o do ataque governamental de 14 de Junho.

 

         A zona para peões, agora ocupada por cerca de três milhares de professores e apoiantes, exibe arte de rua, pinturas de parede, graffiti, e mesmo as tradicionais carpetes de areia do Dia dos Mortos. Cartazes e slogans adornam a fachada de cada loja, e na praça de Santo Domingo está um grupo de fantasmas, em honra dos elementos assassinados do movimento, com uma pistola a jorrar sangue (fitas vermelhas), e o nome de URO. URO é normalmente apelidado de assassino.

 

Se gostar de música, também há: centenas de CDs de produção caseira com a música do movimento e das lutas populares dos últimos anos, incluindo tudo, desde a greve dos professores até às greves dos trabalhadores do Peru. As velhas canções incluem “Casas de Carton”, “De Donde Son?” sobre as barricadas, e “Venceremos”. As novas canções narram sob a forma de baladas, o ataque aos professores no zócalo, e “Estamos hartos” [Estamos fartos] deste governador. Os músicos de Oaxaca continuam a escrevê-las e a cantá-las. Uma aparentemente infinita onda de criatividade e organização mostra o movimento no seu melhor, e enegrece o URO, uma homem desprezado que não pode governar.

 

         URO perdeu a guerra dos media, e as sondagens revelam que até os seus apoiantes do PRI querem que ele saia.

 

 

Texto de Nancy Davies publicado em http://narconews.com/Issue43/article2312.html a 7 de Novembro de 2006, e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:57

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Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

Gestão de Crises

 Talvez a tarefa mais difícil, quando tentamos lidar com os acontecimentos actuais, seja estabelecer a ligação entre a economia e a política. A imprensa corporativa nunca apresenta um acontecimento, por exemplo a invasão do Iraque, como estando relacionado com a economia. De facto, qualquer tentativa de o fazer é ridicularizada (dizendo por exemplo que nem tudo no mundo é por causa do petróleo). O modus operandi é, simplificar estupidamente, é o bem contra o mal, não confundam a cabeça das pessoas com as complexidades da vida real, pois se fizerem isso, vão ter de dar muitas mais explicações sobre porque é que os países agem como agem, não batendo certo com a forma como os acontecimentos nos são apresentados pelos grandes meios de comunicação de referência.

 

No meu último artigo, ‘Leaving the scene of the crime’, eu citei uma reportagem do jornal “Independent” sobre a “Crise do Suez”, de Mary Dejevsky que é um exemplo perfeito de como este processo é feito, onde o Império, quer passado, presente ou futuro é reduzido ao nível da psicologia ou de personalidades. Derrota é uma “humilhação nacional”. Sim, há uma passagem sobre economia, mas nunca a apresenta como a causa da invasão Anglo-Franco-Israelita do Egipto. Em vez disso, é metida no contexto da Guerra Fria e no desejo de Nasser de “tomar o controlo do Canal do Suez”. Porque é que ele quereria fazer isso, não é explicado, excepto no contexto do desejo pessoal de poder ou um desejo de humilhar a “Grã-Bretanha”. Diz-nos Dejevesky

 

“A crise do Suez começou quando do jovem e enérgico Presidente do Egipto, Gamal Abdul Nasser, tomou controlo do Canal do Suez depois dos EUA e da Grã-Bretanha se terem recusado a financiar a Barragem de Assuão.”

 

Reparem que de acordo com Dejevsky, Nasser fez isso em grande parte por ser “jovem e enérgico”. Dejevsky também não explica as razões da recusa britânica e norte-americana em financiar a construção da Barragem de Assuão. Razões fundamentalmente económicas desaparecem por baixo do perfil psicológico do Nasser, que era “jovem e enérgico”, seguramente porque tinha muita testosterona a circular na cabeça, veias árabes.

 

Por isso, a causa das guerras que nos é inevitavelmente apresentada é que há uns indivíduos no poder que são maus, indecentes, que querem tomar conta do mundo ou destruir a “civilização” ou, como no caso do Nasser, têm uma espécie de necessidade adolescente de provar que são um “homem a sério”. Uma vez reduzidas a causas tão simplistas, torna-se mais fácil esconder as mais profundas razões por que os países vão para a guerra. Elas até podem existir, apesar de tudo, mesmo para alguém como Dejevesky, essas razões são impossíveis de ignorar, mas tentam-nos fazer crer que tais causas são menos importantes.

Vejam por exemplo a Coreia do Norte, em que nos dizem que Kim Sung II, o presidente da República Democrática Popular da Coreia (RDPC) quer ter armas nucleares para “conquistar” a Coreia do Sul e destruir o “Ocidente”. Ele quer fazer isso basicamente porque é um maluco, um psicopata, ou então, mais uma vez, tem muita testosterona a circular nas suas quentes, veias asiáticas?

         Qualquer que seja a razão, podem ter a certeza que a economia não tem nada a ver com a “crise nuclear coreana”. Mas procurem um bocadinho mais e temos uma imagem distinta dos acontecimentos.

“Nas conversações a seis, a 29 de Setembro de 2005, uma declaração de princípios sobre o desarmamento nuclear, foi assinada entre os EUA e a RDPC… Apesar de, no acordo, ter sido pedido aos EUA para normalizarem as relações com a Coreia do Norte, literalmente no dia seguinte anunciaram a imposição de sanções a contas bancárias norte-coreanas do Banco Delta Asia, sedeado em Macau, com a acusação de estarem a ser usadas para movimentar moeda contrafeita.” [1]

 

         Mais de um ano depois, os EUA ainda não apresentaram nenhuma prova que apoie essa acusação.

 

“Os norte-coreanos disseram que iriam responder às evidências de contrafacção, prendendo os envolvidos e confiscando o seu equipamento. ‘Ambos os lados podem dialogar num órgão consultivo no qual se pode ganhar confiança. Teria um impacto muito positivo na resolução do assunto nuclear da península coreana’, disse Ri. A delegação também sugeriu que se abrisse uma conta norte-coreana numa instituição financeira norte-americana e colocada na supervisão dos EUA, para afastar todas as suspeitas… De forma não surpreendente, as ofertas da Coreia do Norte foram rejeitadas.” [2]

 

         Então, porque é que os EUA inventaram a história da contrafacção da Coreia do Norte?

 

“As medidas tomadas contra o Banco Delta Asia privaram a Coreia do Norte de um importante ponto de acesso a moeda estrangeira, e também funcionaram como um mecanismo de ampliação dos efeitos das sanções. Ao colocar o Banco Delta Asia na lista negra, os EUA fizeram com que outras instituições financeiras reduzissem os negócios com este banco, e ele se visse forçado a cortar relações com a Coreia do Norte. Rapidamente a campanha tomou proporções globais. O Departamento do Tesouro dos EUA enviou cartas de aviso a bancos de todo o mundo, tendo como consequência uma onda mundial de bancos a encerrarem contas da Coreia do Norte. Com medo de retaliações dos EUA, os bancos acharam prudente encerrar as contas da Coreia do Norte em vez de arriscar ficar na lista negra e terminarem o seu negócio. O Sub-Secretário de Estado do Tesouro dos EUA, Stuart Levey, afirmou que as sanções e as ameaças dos EUA fizeram uma “enorme pressão” na RDPC, levando a um “efeito de bola de neve”. As acções dos EUA pretendiam minar quaisquer hipóteses de um acordo pacífico.” [3]

 

Claramente, a “mudança de regime” é o objectivo das acções dos EUA, através da recusa de acesso à RDPC a moeda estrangeira e desse modo limitar a sua capacidade comercial, enfraquecendo a já fraca economia da Coreia do Norte. Porquê sujeitar o povo coreano a tais privações quando nos é dito que é o bem-estar do povo coreano que motiva as acções do Ocidente?

 

Então que raio se passa aqui? Porque é que os EUA assinam um acordo que reduz a as tensões, normaliza relações e conduziria ao afastamento de algum tipo de “ameaça nuclear” por parte da RDPC, e depois fazem tudo o possível para sabotar esse acordo? Mais uma coisa, porque é que isto não aparece nos meios de comunicação de referência? Porquê esconder ao público informação tão importante, especialmente quando nos estão a dizer que a Coreia do Norte é alegadamente uma ameaça à paz?

Alguém se atreve a sugerir que esses meios de comunicação têm algum tipo de agenda escondida, que não querem que saibamos as verdadeiras razões por trás dos acontecimentos e das acções dos nossos líderes políticos? De que outra forma se explica que tais informações não apareçam na cobertura noticiosa sobre a Coreia do Norte?

Aqueles de nós que têm uma visão céptica dos acontecimentos da forma que nos são apresentados, não vão precisar de ser convencidos, mas e a grande maioria do público que não se apercebe que está a ser a mal informada e enganada?

Obviamente coexistem aqui duas realidades, uma apresentada pelos grandes meios de comunicação e a outra realidade é a do verdadeiro poder a ser exercido por verdadeiras razões, não sendo a economia a menos importante. Entretanto, a Coreia do Norte, Cuba, Venezuela, no fundo, qualquer país que trace um caminho que não bata certo com os objectivos da economia dos EUA, sentirá a força punitiva do seu poder, quer o líder seja um “jovem enérgico” ou um “populista demagogo” ou qualquer outro epíteto difamatório que sirva para a situação.

A sugestão de que os grandes meios de comunicação se portam deste modo é claramente ridicularizada como as loucuras dos “conspiracionistas” ou ainda pior, essa crítica seria, por si só, a expressão de uma agenda própria escondida. No entanto, de que outro modo se pode explicar a total ausência de referências às reais acções dos EUA na sua relação com a RDPC, que não pelo facto de que os grandes meios de comunicação têm uma agenda não-tão-escondida-assim para manter os factos cruciais afastados do público, especialmente se eles têm alguma importância no controlo das crises engendradas tais como a “ameaça nuclear” da Coreia do Norte. Não interessa expor as acções furtivas dos EUA quando o tom dos media são contínuas histórias sobre as “ambições nucleares” da RDPC e do seu perigoso líder.

E reparem como as “crises” vão e vêm, pelo menos na imprensa corporativa. Num dia o mundo está à beira de uma convulsão nuclear e no dia seguinte não se encontra nem uma palavra sobre as “ambições” nucleares da Coreia do Norte. Mas vistos na continuidade da cobertura das notícias, os acontecimentos consistem numa “crise” atrás da outra. Nunca, claro, por causa do Ocidente. São sempre uns asiáticos indecentes, uns árabes traiçoeiros, ou uns latinos de sangue quente, etc. De facto, é uma infinita liturgia de crises e ameaças ao “nosso” modo de vida, mas estas são sempre “ameaças” que existem num esplêndido isolamento da realidade.

“Nós” somos sempre vítimas de um conjunto de trapaceiros e de todo o tipo de loucos e psicopatas assanhados que aparecem e desaparecem de acordo com os critérios ditados pelas acções e objectivos dos nossos governantes. Mas sem a cumplicidade activa dos media corporativos, tais “ameaças” seriam impossíveis de vender. Assim, palavras aparentemente inócuas como as da Mary Dejevsky, que têm o propósito de ser nada mais do que os seus “pensamentos” sobre as suas ainda pouco desenvolvidas impressões sobre a “cirse do Suez” (“A minha geração cresceu na sombra do Suez”), assumem um papel mais ameaçador, pois reforçam a visão imperial do mundo, de um mundo de “nós contra eles”, onde “nós” somos as vítimas, mesmo se, como sugere Dejevsky, seja apenas um ataque fatal aos nossos idos egos imperiais.

Mas é assim que são dão os enganos, e o que torna tais “pensamentos” tão perigosos, é que mascaram a realidade subjacente dos interesses económicos e de poder (por exemplo, a posse do Canal do Suez, que apesar de atravessar o Egipto e correr em terras egípcias, foi “tomado” por Nasser, no universo atabalhoado da Dejevsky, onde a posse é um direito exclusivo daqueles com poder para o conseguir).

Desafiem esse poder e podem ter a certeza que irão ter o que merecem. Primeiro são diabolizados pelos meios de comunicação de referência, depois são isolados pela mítica “comunidade internacional” (termo jornalístico para os grandes poderes económicos dos EUA e da Europa), e segue-se uma dose pouco saudável de explosivos, só para o caso de não terem percebido a mensagem.

Notas

[1]. Para a história completa, ver ‘Why Bush is Seeking Confrontation With North Korea’, por GREGORY ELICH
[2]. idem
[3]. idem

 

Texto publicado por William Bowles no dia 30 de Outubro de 2006 em http://williambowles.info/ini/2006/1006/ini-0459.html e traduzido por Alexandre Leite.

publicado por Alexandre Leite às 23:51

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